A Ilha no meio do Brasil

Esta semana Brasília faz 52 anos. Não farei aqui uma homenagem à cidade, deixo isso para tantos outros, que já o fazem com muita propriedade. Venho aqui na contramão para falar sobre nossa Capital Federal de uma maneira que poderia soar inusitada para esse dia. Venho trazer a reflexão sobre a utopia, a “ilha da fantasia” que se chama Brasília.

Em meio ao fervor de um modernismo megalomaníaco e, em muitos sentidos, quadrado (com o perdão do tracadilho), surgiu a ideia da capital federal no centro do país, uma cidade que fosse um símbolo. Isso se concretizou e a cidade nasceu como símbolo do modernismo e do progresso. Modernismo e progresso segregacionistas, que colocaram “tudo de bom” dentro de um avião e não permitiram o embarque da população, das próprias pessoas que ergueram a aeronave. Essas pessoas foram despachadas para gravitar como satélites em volta desse planeta fechado que abriga vários donos do poder (político e econômico).

Essa é uma cidade que exclui o pedestre (tudo é longe e o transporte público é precaríssimo!) e que hoje já não dá conta de tantos automóveis. Uma cidade em que “não há pobreza”, pois tem os imóveis mais caros do Brasil[1] e expulsa aqueles que não se adéquam a essa realidade. Uma cidade que é conhecida pela podridão do poder público que aqui se centraliza.

Mas Brasília é muito mais do que o governo. Brasília é polo de conhecimento, de mobilização social e de cultura. A capital é movimentada, e tem fervilhado com a atividade incessante de sua Universidade, com eventos acadêmicos, com a construção e o fortalecimento de movimentos sociais dos mais diversos motivos[2], com eventos culturais de diferentes envergaduras e temas (a Bienal do Livro representa bem o que quero dizer).

Mesmo com todas as dificuldades e problemas que Brasília tem – e que o fetichismo acerca da cidade não nos permite problematizar –, essa é uma cidade magnífica, com encanto e com futuro. Esse futuro está nas mãos dos/as brasilienses, que aqui constroem sua história – parte da história da Capital Federal.

É assim que vejo Brasília não como uma “ilha da fantasia”, mas um lugar real, com problemas reais e pessoas reais, que têm o desafio de viver o dia-a-dia ao mesmo tempo em que o transformam. Apesar de o modelo do avião, do moderno, ser feito para que o funcional exclua o humano, espero que daqui para frente esse avião voe não mais com as engenharias de um racionalismo abstrato sem o sentimento das pessoas, mas que suas engrenagens sejam o próprio movimento cidadão das pessoas.

Parabéns Brasília.

Por Augusto César Valle

5 pensamentos sobre “A Ilha no meio do Brasil

  1. Anónimo

    A alma dessa cidade se conjuga na alma daqueles que nela nasceram, seus filhos legítimos, não mais nas adotadas como a minha, por mais que a amemos…
    A utopia das quadras quatrocentas populares só teve sobrevivência na mente idealista de Lúcio Costa, pois o urbanismo não é instrumento transformador da realidade mental humana segregacionista em seus preconceitos.
    Há que primeiramente se transformar as mentes!
    A jovem lucidez da visão realista e de anelos sinceros em sua humanidade expressa nesse texto infunde confiança num futuro promissor para essa humanidade que me sucederá nessa cidade que fiz minha também ao longo dos anos que nela vivo.
    Parabéns por nos permitir reflexões tão necessárias ao celebrarmos mais um aniversário dessa nossa cidade querida!
    Clarice Valle

  2. Mouna Moura

    Tenho-te Amor, Brasilia. Há 52 anos (farei em 7.7) te acompanho, passo a passo. Caldeirão de tudo, eclética, múltipla, personalíssima, única e acolhedora. Os que aqui nasceram ou nasceram para uma nova vida ou para começar uma vida têm-te Amor, dando-te as mãos e o coração para que engatinhasses, desses teus primeiros passos e aprumasses pés e pernas, ombros cada vez mais carregados por tantos idiomas! É preciso estar lado a lado… junto… para compreender tua razão de ser e existir. MounaMoura

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s