Arte na sala 101

Uma série de textos, um trecho de filme e uma obra de literatura – não é tão incomum, para estudantes de Direito, articularem diversas linguagens em um trabalho para a melhor compreensão do conteúdo. O que é incomum é que essa articulação exija, além de capacidade de síntese, criatividade – essa habilidade que, infelizmente, é tão estranha aos futuros juristas em sua formação – embora se mostre essencial em muitas situações da atuação profissional. Tendo em vista a importância da criatividade no processo educativo – assim como a necessidade de que a compreensão chegue não apenas a estudantes de direito, mas a seres humanos sensíveis; o PET-Direito propôs aos alunos de Pesquisa Jurídica do  2º semestre de 2011 que, ao invés de um simples fichamento, fossem além. Contos, poesias, cordel, vídeos, músicas – a forma era completamente livre. A única exigência era algum uso da criatividade na articulação dos textos – e os resultados foram muito além do que poderíamos esperar. Sentados na sala de aula estavam músicos, poetas, diretoras de filme, mentes inquietas… Com muito orgulho, o PET-Direito apresenta alguns desses trabalhos.

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 1984 x 1964

Em um passado logo ali,

o futuro era incerto,

e um sujeito um tanto esperto,

nós devemos aplaudir.

Escreveu um livro são,

sobre um mundo ficção,

cuja fantasia, na verdade,

lembra a realidade

deste mundo atual.

Ou diria digital?

Onde tudo é registrado,

gravado e armazenado.

Hoje a privacidade sai perdendo

para liberdade de expressão.

O que eu não estou entendendo,

é se o que estamos vivendo,

é realidade ou ficção?

Como tudo é equilibrado,

até mesmo nesse caso

existe outro lado,

o qual é muito bom.

Se em sessenta e quatro,

naquele golpe de Estado

em que o Brasil era tomado

por um exército depravado,

um blogueiro bom de papo,

em alto e bom som,

tivesse divulgado  na Internet
que o brasileiro, coitado,
era transformado em marionete,
talvez o destino desse golpe
não tivesse a mesma sorte.

Portanto, meu amigo,

raciocine aqui comigo.

Viva a liberdade!

E a era digital!

Abro mão da privacidade,

o que não é de todo mal,

desde que o controle do mundo inteiro,

Incluindo esse Brasil lindo e trigueiro,

não esteja na mão de um único Grande Irmão

Por Raul Melo

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2 + 2 = 5

Verdade é uma palavra que atrai o leitor. O conceito de verdade é tão impalpável e tão presente no cotidiano que é difícil não ler a palavra e refletir em como ela se adéqua em nossas vidas, ou não lembrar aquelas situações em que a verdade já nos colocou em uma encruzilhada. Uma indagação comum que se tem em relação à verdade é se ela é ou não o melhor caminho para nossas vidas. Alguns dizem que é sim o melhor caminho porque é o caminho mais limpo – sem mentiras. Mas e quando a verdade da vida não é aquela que queremos? Como negar que às vezes o que realmente desejamos é resistir à verdade imposta?

Esse é o caso de Julia e Winston. Eles cometeram o maior erro possível na sociedade opressiva em que viviam; se apaixonaram. Quiseram ser verdadeiros. Se Winston amou Julia pela fita vermelha ao redor da sua cintura e a sua vivacidade ou pelo o quê Julia representava não é o que de fato importa – paixão não é nem nunca será o melhor argumento lógico, porém a força que ela tem para mover as pessoas envolvidas é inquestionável. Winston via em Julia uma chance de fugir da verdade em que vivia, e o quarto em que dividiam acima da loja de antiguidades era o mais próximo da realidade de ser ele próprio que Winston jamais chegou.

Por mais que Winston tenha sido o mais verdadeiro possível consigo mesmo durante seu caso com Julia, aquela não era a verdade do governo, a verdade de O’Brien. E não existem verdades únicas – elas são como uma pilha de fatos em que vamos adicionando acontecimentos e, no fim, a melhor verdade é simplesmente o melhor argumento, a melhor prova. O governo era uma forma de providenciar novos acontecimentos, mudar eventos históricos e o que era Winston contra essa máquina de novas verdades? Cada um está só quando se trata da sua própria loucura, seu próprio conceito de certo e errado; Winston só tinha a si mesmo de amparo, e em um período em que filhos denunciavam conversas privadas dos pais, ele era, mesmo que em vasta minoria, o seu apoio mais seguro.

Winston pensava ter em Julia um fim para sua solidão de pensamento. Mas o fato é que algumas vezes as outras verdades, aquelas que não queremos ouvir, podem ser tão duras que o sentimento acaba, assim como o amor deles chegou a um a um fim. E esse fim veio pelas mãos de O’Brien, que seguravam um argumento ganhador: Ratos. O sofrimento que Winston sentiu, tudo que ele passou quando preso no Ministério do Amor o mudou como pessoa, depois de ver uma pessoa ser torturada por outro ser humano que nem hesita, como não achar que dois mais dois podem ser cinco? É óbvio que pode ser. Tudo pode ser considerado verdade numa sociedade em que não se tem permissão para pensar. A única coisa que nos resta de consolo, ou melhor – resistência, é que ainda podemos escolher qual verdade queremos aceitar para a nossa vida, mesmo que calados.

Se essa dita verdade, a verdade aceita pela maioria, é o caminho mais limpo, ninguém pode garantir; ninguém pode afirmar que uma verdade é a certa. Mas uma certeza que Winston e Julia conseguiram mostrar é que algumas ilusões, como uma maquiagem mal feita ou o cheiro de café vindo de uma chaleira, são aqueles detalhes que dão cor ao dia a dia. Não se pode viver temendo que a ilusão acabe quando a realidade é dura demais para se aceitar, ter uma verdade individual, que não coincide com a maioria nem sempre é uma coisa ruim, são esses pedaços de ficção que nos fazem respirar fundo e agüentar um dia por vez. E se uma ilusão acaba, não significa a rendição, tem sempre outra a espreita, logo ali no virar da esquina, esperando para nos fazer suportar os “O’Briens” do cotidiano.

Por Esther Serruya Weyl

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Por Yuri Alencar

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Quando eu canto/É para aliviar meu pranto/E o pranto de quem já/Tanto sofreu/Quando eu canto/Estou sentindo a luz de um santo/Estou ajoelhando/Aos pés de Deus/Canto para anunciar o dia/Canto para amenizar a noite/Canto pra denunciar o açoite/Canto também contra a tirania/Canto porque numa melodia/Acendo no coração do povo/A esperança de um mundo novo/E a luta para se viver em paz!” Minha Missão – João Nogueira

 

Entende-se, teoricamente, como sociedade um grupo de indivíduos que vivam por vontade própria sob normas comuns, as quais são fundadas na defesa de um interesse coletivo. Porém, encontram-se configurações sociais que divergem amplamente desse potencial ideal de organização e, muitos acabam, obviamente, por classificá-la “sociedade”. Configuram-se agremiações pautadas na lógica do poder, este vinculado à autoridade e à influência. Um poder que reside em infligir dor e sofrimento, em despedaçar os cérebros humanos e tornar a juntá-los da forma que se entender, detê-lo significa não um meio, mas um fim em si. Tal relação, a inúmeros, remontaria ao mito do maquiavelismo uma vez que a ele relaciona a utilização de uma força, sendo esta qualquer, principalmente coação física, para a garantia de uma civilização perfeita que priva a ordem e estabilidade.

Mas e o povo? Neste contexto expresso de barbárie extremada onde estaria o povo, senão na luta por seus direitos? Estaria, pois, em suas casas, em seus trabalhos, em sua “vidinha” cômoda repleta, se da elite for, de privilégios, contemplando sua mente alienada da realidade vigente, sem se preocupar com a garantia de uma verdadeira sociedade, de uma efetiva vontade própria? Diante de diversos exemplos que já se viveu ter-se-ia respostas das mais diversas – povos que se sublevaram ao regime/estado vigente, Revolução Francesa, independência da América Espanhola, dos Estados Unidos; povos que, passivamente, se deixaram influenciar por um discurso de superioridade de si em detrimento de outrem, Alemanha Nazista, Rússia Socialista, Itália Fascista; povos que por meio de organizações estudantis, sindicatos, forças políticas aliado a forças externas conseguiram por fim a um regime repressivo, excludente e violento, Ditadura Militar Brasileira – 1964, Regime Salazarista.

Evidentemente, a conquista por parte do grupo social não é efêmera, nem mesmo tranquila, a busca por voz em um ambiente marcado por censuras, por punições imediatas, por extradições, mortes em guilhotinas, enfim, em um meio repleto de retaliações que, muitas vezes, acabam por inibir os cidadãos, que outrora lutavam por seus direitos, não é atingida facilmente.

A criação de sociedades fundamentadas em ideologias universais comumentemente se dá em meios onde o ódio, o sentimento de revanchismo, de dor, de aversão a uma determinada cultura encontram um terreno fértil para frutificar-se. A conquista de adesão popular é pautada em discursos ufanistas/nacionalistas nos quais se obscurece o lado negro da sociedade e desse novo governo a ser implantado que, na verdade, utiliza-se do povo como arma para a confirmação da sua tirania. Esta que, seguramente, irá de encontro aos interesses das classes socialmente impostas como inferiores.

A manipulação dar-se-á de forma efetiva já que almeja-se a dominação de classes no tocante mais profundo – a mente. Aquele que puder por bem dispor de mecanismos que possibilitem a manipulação dos acontecimentos, de tal modo a ocultar insurreições, notícias polêmicas, veículos que forneçam voz ao povo, ou seja, que deem a eles capacidade de organização, acabarão detendo o maior poder que já se idealizou, o poder de inferência no subconsciente; de ser crer em algo, contudo, não se ter meios para comprovar tal suspeita, de tornar falso aquilo que outrora se cria verdadeiro, de se extinguir uma realidade em prol da construção de um mundo paralelo calcado na criação de um bando de máquinas humanas, as quais, mediante a incapacidade de funcionar-se por conta própria, acabarão por se tornar indivíduos facilmente dominados, a mercê de um regime. Estes por não possuírem capacidade de raciocínio, uma vez que as informações a eles acessíveis são vinculadas ao interesse do governo, não desenvolverão o poder de resolução de problemas nem o da constituição de seu juízo de valor, algo que lhe é inerente quando o ser é capaz de discernir entre realidades conflitantes confirmando para o despertar de suas consciências e para o desenvolvimento do bom-senso.

O mundo paralelo criado é um modelo ideal, logo mesmo que haja a utilização de violência – não cabe dizer se esta é ou não legítima, pois a sociedade não tem possibilidade de legitimar verdadeiramente, já que tal ação está ligada ao desenrolar de uma mente ativa, agente de suas convicções, e não produzida por outrem – não haverá modos de vê-la como coercitiva, punitiva, pois não há um mundo passível de a ele ser comparado, configurando uma sociedade imersa em uma bolha de cristal; livre, tão logo, de quaisquer intervenções externas.

Até que ponto esta dominação incidirá sobre tais indivíduos? Será ela capaz de retirar-lhes toda a essência de humanos, toda a capacidade de construção de uma civilização mais equânime, de criação de seres mais presentes socialmente, movedores da dinâmica mundial? Como será, enfim, possível desvencilhar de tal fim, este vinculado a humanidade dos seres, aliado a essa a capacidade de discernimento? A resposta encontrar-se-á nos próprios indivíduos ali inseridos já que serão eles responsáveis por quaisquer mudanças que vierem a ocorrer e estas estarão ligadas a um conhecimento por eles adquirido, sendo este puro e verdadeiro, sem nenhuma ação manipulativa ou de dominação, um conhecimento capaz de motivá-los a um desenvolvimento de suas habilidades e a edificação deles como construtores de seu futuro. Haverão, pois, de encontrar o caminho para o decaimento das máscaras que, nesse momento, vendam os olhos desses grupos na construção, por fim, de uma EDUCAÇÃO VERDADEIRA, a qual permitirá o despertar de si como cidadão.

Por Priscila Helena Soares Piau

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Ode à tecnologia

Fiz uma máquina que viaja no tempo

Pronto. Tenho tecnofilia

1984, 2004, 3024 eu tento

Eu viajo no tempo

1984 entra em minha cantiga

E, sem mais nem menos, lembro-me de uma música de infância

Que saudade dessa velha amiga!

Mas ela entra nesse poema sem importância

Como num doce entra uma formiga

Sem implicância

Eu tento

Eu viajo no tempo

Era uma era muito embaçada

Não tinha liberdade não tinha nada

Ninguém podia pensar nela não

Porque não havia direito de expressão

Ninguém podia reclamar de fome e sede

Porque tinha uma teletela na parede

Ninguém podia pensar em fugir

Porque a Polícia das Ideias estava ali…

Mas tudo não foi exatamente assim

Não teve Socing, mas capitalismo sim

Fomos colocados numa caverna

Vendo nas sombras a verdade eterna

Volto para o presente

2004 é o aqui e o agora

Tem gente que não sente

Mas a esperança foi embora

Desigualdade, pobreza e família carente

Num beco, uma criança que chora

Eu tento

Eu viajo no tempo

Universidade para quê?

Estudar direito para quê?

Tenho certeza que não é só pra ler

Universidade é espaço para informação

Manter a sociedade longe da alienação

Um espaço integrado do Saber

Darcy Ribeiro ia gostar de ver

O mundo social é complexo e subjetivo

Ninguém é dono da verdade

Mas a resposta do jurista deve ser objetiva

Assim como as leis da sociedade

Legislar, julgar, ordenar

Razão ou sensibilidade? O que usar?

A crise da modernidade atinge cada pais

E agora? Qual o papel do juiz?

3024, como o futuro será?

Não quero nem saber, minha máquina vou desligar

Tenho medo do regresso, pois quero o progresso

Ao amanhã, por hora, não quero ter acesso

Voltemos nossos olhos ao presente

Para caminhar sempre em frente

Integrar para pesquisar e estudar

Faremos da Universidade um lar

Para, assim, o juiz poder julgar

A sociedade poder confiar

A teletela não funcionar

E o futuro alcançar

Eu tento

Eu viajo no tempo

Por Ester Cardoso da Silva

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