Nos ombros de gigantes.

A analista junguiana e contadora de histórias Clarissa Pinkola Estés descreveu um curioso sonho: certa vez, estava contando uma de suas histórias, quando sentia que alguém lhe dava tapinhas encorajadores nos pés constantemente. Quando olhou para baixo, percebeu que estava em pé sobre os ombros de uma senhora idosa que lhe segurava os pés e sorria. Ela pediu que a senhora subisse em seus ombros – afinal, ela já tinha uma idade avançada – mas a velha insistia que “era assim que deveria ser”. Foi então que Clarissa percebeu que, segurando a idosa pelos pés estava uma mulher ainda mais antiga, que por sua vez estava sendo segurada por outra mulher, coberta por um manto, e mais outras, e mais outras…

É sobre essas mulheres que eu gostaria de falar neste dia da mulher. Aquelas que, com suas histórias, suas lutas e suas vidas, construíram o mundo em que vivemos hoje como mulheres; que abriram os caminhos que agora trilhamos como se fossem óbvios; que falaram o óbvio de hoje como o indizível de ontem – e pagaram caro, mas tão caro por isso.

Lembrar da luta das mulheres que nos antecederam nos remete imediatamente a grandes momentos de movimentação política: nas ruas, nas fábricas e nas arenas institucionais, acotovelando-se na horda de “senhores respeitáveis” para conseguir sua inserção na política, no trabalho, no espaço público. Pensamos em grandes líderes, figuras públicas, artistas, heroínas e mártires… Mas isso seria contar apenas um pedaço da história.

História, aliás, que nem sequer nos fala de nossas tantas heroínas sem nome – das donas de vendas no Brasil escravista que sustentavam o comércio local e abriam suas casas para conspirações para libertar escravas e escravos; das mulheres religiosas que, mesmo sem a permissão da coroa, erguiam conventos não-autorizados com os seus próprios meios para acolher mulheres que queriam viver sua religiosidade; as “normalistas” que abdicavam do casamento para perseguir uma educação superior; as professoras que chocavam sua sociedade ao dar aulas gratuitas para crianças de todas as origens étnicas, e tantas outras…

As mulheres que sustentam nossos pés, que lutaram por nossa liberdade e abriram terreno em um mundo tão hostil e desigual foram justamente aquelas que lutaram na arena mais difícil e angustiante: suas próprias mentes, seus próprios lares.

Um dos avanços mais incomensuráveis do feminismo para a humanidade foi a afirmação de que a chamada “esfera privada” não era, de forma alguma, isenta de política; que a família, o cotidiano e o papel de nosso próprio corpo devem ser, sim, objetos de questionamento para que possa haver uma efetiva igualdade, uma efetiva libertação; que as grandes causas, enfim, são sustentadas por uma miríade de pequenas atitudes que constroem, lentamente, a mudança de mentalidade que tanto desejamos.

Nossas predecessoras fizeram o que hoje consideramos o óbvio ululante – usavam calças para ir à escola, informavam-se sobre métodos contraceptivos, conversavam sobre sua sexualidade, faziam sexo antes do casamento, constituíam famílias fora dos moldes socialmente aceitos, encabeçavam negócios, adentravam em cursos universitários, falavam em público, procuravam empregos, andavam nas ruas e saíam para divertir-se sem a companhia de pai, irmão ou marido, casaram com quem elas mesmas escolheram – ou até mesmo escolheram não casar…

Mas é exatamente na construção desse cotidiano óbvio que residiram tantas das instâncias concretas em que podemos dizer que o movimento de mulheres modificou – e radicalmente! – as estruturas da sociedade.

Obviamente, não procuro minar a importância das arenas institucionais e políticas – do direito ao voto, da criação de leis garantindo a igualdade jurídica entre os sexos, da redefinição dos crimes “contra a honra da família” para “crimes contra a dignidade sexual” – mas sim ressaltar como essas próprias mudanças só conseguem ser efetivadas quando acompanhadas das questões cotidianas aparentemente banais, das pequenas coisas que nem sequer prestamos atenção, mas sentiríamos amargamente se fossem tiradas de nós.

“Vá às ruas!”, clamam as vozes pela mudança, mas só as ruas já não são o suficiente: vá à sua casa, vá à sua família e a seu círculo de amizades, vá a seu trabalho e seu estudo, e opere ali as mudanças que são reivindicadas politicamente. Com essa e outras mensagens, as mulheres que vieram antes de nos abriram muitos caminhos – mas nos lançam também um desafio:

Apoiadas por sua coragem, subimos sobre seus ombros para viver os frutos de seus esforços como nosso cotidiano – mas logo será uma nova geração a apoiar-se sobre nossa história, nossa marca na construção do que significa ser mulher. Que mundo daremos a elas? Sobre qual base elas apoiarão seus pés?

P.S.: Para mais informações sobre o movimento feminista no Brasil e as vovozinhas femininstas que fizeram isso acontecer, fica a indicação desse excelente vídeo: http://vimeo.com/36051357

Por Luisa Hedler.

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