Religião e alteridade nos antigos

Das religiões de tempos passados, como nas antigas Grécia e Roma, herdamos muitos elementos. Alguns foram simplesmente incorporados pela Igreja Católica e transfigurados aos seus modos, o que se deu essencialmente pela não diferenciação entre cultura e religião, vistas separadamente só tempos depois.

Assim, tendo ciência de que nossa cultura é fruto de um contexto social-histórico formado desde tempos imemoriais de maneira bastante complexa, constantes re-análises de antigos institutos sempre se fazem úteis e esclarecedores. Contudo, desta vez, não quero me ater a um elemento que herdamos, mas exatamente a um que deixamos lá no passado.Imagem

Cada família grega ou romana mantinha uma lareira constantemente acesa dentro de casa (não à toa temos o significado da palavra lar como tal). A lareira doméstica não precisava ser necessariamente fogo cintilante, bastando uma brasa acesa ou um simples sinal de fogo, como em um incenso. No entanto, sendo divino, a família tinha por dever primeiro nunca deixar o fogo se extinguir. A lareira significava nada menos que a própria Providência da família, a existência de seu nome, sua história e seus deuses.

Colocada em um pequeno altar, a lareira dava o lugar principal dos cultos religiosos. Porém, esses cultos não eram públicos. Não havia um ritual comum para a celebração dessa religião doméstica. Cada família detinha completa independência sobre seus rituais, deuses e crenças. Assim, a lareira era mantida em locais de proibido acesso e de difícil visualização por estranhos. A intimidade no seio familiar dos cultos religiosos podia ser maculada pelo mero olhar de pessoas estranhas.

ImagemHavia, para tanto, o entendimento comum de inviolabilidade da religião do próximo. Uma vez que o contato de uma pessoa estranha profanava a religião doméstica, era necessário não interferir na expressão religiosa do vizinho. E se havia algum objeto que representava algum antepassado ou um deus dessa família, ele era respeitado como se assim fosse para a pessoa estranha.

Nenhum poder externo tinha o direito de interferir nos cultos ou nas crenças da família. O respeito mútuo era condição básica para a justa expressão religiosa. Os antigos não faziam uma projeção universalizante e totalizante de suas crenças ou de comportamentos decorrente delas. Ao contrário, tinham suas religiões como algo extremamente pessoal e reservado, deixando para o outro a livre possibilidade de qualquer expressão religiosa, tendo para si que a interferência era algo a ser fortemente repudiada.

Herdamos muitos elementos das antigas religiões, mas esse ficou para trás. Acredito que em um espaço cada vez mais múltiplo e heterogêneo – e talvez até mesmo por isso – a expressão religiosa exercida com liberdade se torna uma eminente necessidade, sem coações e sem interferências. E não me refiro somente às crenças que cultivamos subjetivamente, mas também ao nosso comportamento como reflexo da expressão religiosa. Que ele seja respeitado e tenha livre espaço para se manifestar, sem as universalizações moralizantes que porventura havemos de fazer.

No Estado laico e em um espaço público cada vez mais plural, acredito que temos um exemplo nos antigos a ser seguido. Para que a preocupação com a religião do outro, ou mesmo sua ausência, seja tão somente a procura constante de nela não interferir.

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Por Rafael de Deus Garcia.

4 thoughts on “Religião e alteridade nos antigos

  1. Adorei o texto! Num momento em que o Brasil passa por tantas controversias relativas a laicidade do Estado em questões como por exemplo a legalização do aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexto, essa lição certamente deveria ser reavivada.

  2. Interessante aspecto da vida romana.

    O artigo apenas carece de suas referências bibliográficas. Fica a sugestão para este e outros textos do blog.

    • Preferi deixar a referência de lado, na intenção de manter a informalidade e a proposta do nosso blog. Mas a referência é Fustel de Coulanges, A Cidade Antiga, Livro I, Cap IV.
      E obrigado pelos comentários!
      Rafael.

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