8 segundos e a desmistificação da questão das drogas no Brasil

8 segundos. Em apenas 8 segundos surge um muro quase instransponível que condena o usuário de crack à indiferença. Sujeira, perigo, ameaça e desumanidade são estigmas comuns imputados a milhares de homens e mulheres que se veem sujeitados todos os dias ao desprezo frio da sarjeta imunda. Imundice. Sarjeta. Frio. Desprezo. Sentimentos comuns e incomodamente próximos aos que desesperadamente anseiam por apenas mais 8 segundos. Apenas 8 segundos. Tempo indisponível àqueles que dividem espaço com as lixeiras. Lixo. 8 segundos e nem um único olhar de ternura. 8 segundos. E a compaixão lhes é negada em um fluxo ininterrupto. 8 Segundos. Espera infrutífera e desoladora. 8 segundos. Esperança ocultada pela fuligem dos carros que passam intrépidos e desconfiados. Antigos moribundos e crianças alucinadas se amontoam em vielas a espera. A espera de. Não vem. Mais uma pedra. Só mais uma pedra e volto pra. Não voltam. As suas marcas não permitem, na maioria dos casos, um retorno. Imaculados pelo falso mito da irrecuperabilidade que apenas se verifica em ações em que o usuário é internado em clínicas de recuperação de maneira compulsória. Ao forçar homens e mulheres a se sujeitarem contra suas vontades o índice de eficácia do tratamento é baixíssimo – com até 98% de recaídas. Mais 8 segundos. Dizem que o dependente experimenta a sensação de 8 orgasmos durante esse curtíssimo espaço de tempo. Subjaz incrustado nas práticas implementadas pelos governos – e na atual operação movida na cidade de São Paulo – o discurso que nega o dependente químico. O mesmo discurso que afirma ser a Cracolândia simplesmente um problema de segurança pública que deve ser brutalmente extirpado. Mas ao não contemplar as nuances claras de exclusão e o contexto de violência em que essas pessoas estão imersas o poder público não consegue perceber o óbvio: o problema da região é o abandono, não o dependente químico. Segundo dados oficiais do próprio estado de São Paulo a maior parte dos usuários de crack apresenta dados socioeconômicos abaixo dos da média do restante da população paulistana e 77% deles vivem nas ruas. Os que trabalham fazem bico. Bico que os mantêm na rua. Moradores de rua? Não, pessoas em situação de rua. Ninguém vive nas ruas, a sério. Pelo menos não os enxergamos. Profissionais do sexo. Guardas de carro. Catadores. Invisíveis. Silenciosos. Incomodam apenas quando requeremos os espaços que estes e estas singram durante as noites imperturbáveis.

Os “nóias” – termo pejorativo que se refere aos toxicômanos – se misturam quase imperceptíveis às ruas e avenidas. Paisagem. Suor e lágrimas não são relevantes o suficiente para serem detalhados nos rostos esculpidos pelos jornais. Quando a máscara se torna mais real que a própria face. Mais 8 segundos. A voz que embarga ao contar sobre o passado dá lugar ao ódio e medo insuflado pela mídia que soluça em uníssono o mesmo muxoxo. O usuário de crack é encarado como um ente indesejado e infalivelmente perdido. E é exatamente esse conceito que justifica muitas vezes o descaso e a quase inexistência de estruturas que possam auxiliar e proteger os dependentes. A ausência de busca por alternativas que não recorram à violência e ao uso exclusivo do aparato policialesco acaba sendo grandemente prejudicada por essa postura que os grandes veículos de informação acabam no mínimo tacitamente apoiando. Uma postura higiênico-sanitarista ainda se faz muito presente em várias medidas propostas pelo legislativo e executivo quando se tematiza o uso de narcóticos no país. E esses 8 segundos se multiplicam e se perdem em muitas mais 8 segundos e vidas humanas.

Mas para chegar a uma interpretação não superficial do Brasil de hoje, que é o que realmente interessa, necessitamos revisitar momentos e conceitos que parecem longínquos, mas que ainda nos cercam de todos os lados. Ao não tocar no cerne da questão da precariedade que caracteriza as vidas da maioria das pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade perde-se a chance de se resolver definitivamente o problema do uso de drogas em sua raiz. A história epidemiológica e a experiência clínica demonstram que o projeto de uma sociedade sem consumo de drogas é ilusório. As posturas proibicionistas e repressivas são geralmente inócuas. O fenômeno representado pelos narcóticos é extremamente complexo. Ao calcar a erradicação do consumo apenas na abstinência forçada – cortando o fornecimento e ou penalizando o usuário – o dependente vê-se isolado e encurralado na maior parte das vezes. Um sistema de proteção e acompanhamento não consegue se firmar em meio a políticas de repressão e culpabilização extremas. Ausência de confiança, de ambas as partes. Fica claro que nem sempre o combate às drogas visa ao bem-estar dos homens e mulheres que se defrontam a um estágio acentuado de exclusão ao longo desse processo.

A prefeitura de São Paulo ao preconizar um enorme projeto de revitalização do bairro da Luz – espaço físico em que se situa a maioria dos toxicômanos – acaba recaindo em um erro crasso de percepção. Tentam revitalizar um bairro que historicamente foi ocupado por setores populares da sociedade paulistana excluindo esses mesmos grupos do setor, e em específico os usuários de crack. Mas a Cracolândia não é um lugar, mas sim um grupo de pessoas itinerante. Territorialidade itinerante que a truculência e o engessamento das políticas públicas adotadas não conseguem captar. Ao reconstruir um bairro com requinte e esmero esperam miraculosamente afastar os dependentes e cortar o fornecimento de crack do centro de São Paulo. Medidas dessa espécie, já abandonadas há décadas em países desenvolvidos como a Suíça e a Alemanha, são dispendiosas e de difícil manutenção em longo prazo. Tentam ocultar um problema gravíssimo que só pode ser solucionado com um programa integrado entre Estado e sociedade civil por meio de demolições e construção de novos espaços de convivência e lazer. Repressão e demolição que não incide diretamente no quadro social do bairro da Luz. Perpassa essa região problemas estruturais ainda mais graves e profundos que raramente a mídia explora de forma adequada. A precariedade em termos de acesso à moradia, empregos e serviços públicos são características presentes no bairro desde a muito. Entrelaçam-se visceralmente aí problemas como pobreza, exclusão, descaso, tráfico de drogas, violência e preconceito. O fato de a maioria dos usuários ser negro ou mulato ainda é negligenciado. A aparência física das usuárias de crack não se difere muito dos traços característicos das mulheres que integram a enorme massa de desvalidas que vagam todas as noites pelas ruas e avenidas da próspera e desigual comunidade paulistana em busca de comida. As pessoas que marcham sobre o descomunal canteiro de obras a céu aberto ainda continuam a ser advindas das camadas mais carentes da população. Os problemas sociais não cessam a criar novos motivos para que milhares busquem acalento em locais impróprios à vida humana saudável. 8 segundos. Muitas vezes a única mão que se estende a eles e a elas é a mesma que oferece esquecimento e prazer em. 8 segundos.

Já ocorreram dezenas de batidas policiais que ao fim de poucos dias não fazem mais do que se tornar tema para cartunistas perspicazes. Políticas públicas que apregoam simplesmente prisões e internações forçadas não passam de engodos que nos ludibriam por alguns dias de intranquila calma. Passageira. Enquanto o uso de drogas no Brasil não for desmistificado haverá ainda. 8 segundos. O principal intuito de um programa de erradicação – ou limitação do consumo – das drogas em um país deve ser o bem-estar de homens e mulheres que só pode ser alcançado por meio da construção de uma ampla rede de proteção. Um sistema que não relegue à clandestinidade todos os homens e todas as mulheres que em determinado momento de suas vidas incorreram no uso de narcóticos. Sua integridade deve ser resguardada ainda de maneira mais efetiva quando estes e estas são usuários de drogas potencialmente devastadoras. Acima de tudo o combate às drogas deve ser visto como a efetivação do direito dos usuários e das usuárias de crack, por exemplo, a terem garantidos o seu bem-estar – e qualquer política que se relacione aos toxicômanos apenas pode ser legitimada pelo fato de primar por esse direito à proteção irrestrita e permanente. Uma pessoa em cada 20 pessoas se serve habitualmente de alguma droga proibida ao redor do mundo, segundo a ONU. Possuímos assim um número entre 250 e 350 milhões de dependentes químicos. 8 segundos. Em escala planetária e exponencial. Em qualquer contexto os direitos e as garantias desses milhões de seres humanos devem ser resguardados – principalmente de soluções simplistas e julgamentos precipitados.

Por Edson de Sousa

Anúncios

3 thoughts on “8 segundos e a desmistificação da questão das drogas no Brasil

  1. Genesio Fernandes

    A arrecadação de impostos no Brasil Bateu record. As verbas que chegam às escolas e são aplicadas corretamente batem o record de sumiço e ineficácia. E cada dia a fila do crack aumenta mais. Não é um absurdo. Eu creio na educação para resolver o problema das drogas – ela é uma das armas mais poderosas e, se aliada a outros meios, tem mais força ainda. Mas nisso ninguém pensa. Há anos, escrevi-lhe uma carta, pedindo à reitora de uma certa universidade que fosse pensado um programa de ação integrada de todas as áreas do conhecimento da universidade, para encontrar caminhos para solução do problema das drogas, orientar a comunidade e as ações já existentes na base do ensaio e erro apenas. Não adiantou nada. Houve até quem desse a entender a improcedência disso, porque jugavam que o problema das drogas era de uma “minoria”. Agora vemos que trata-se de um mar de drogas e drogados .

    A ação de São Paulo, na Cracolândia, é de uma burrice sem tamanho, ação imediatista e sem nenhum fim sério.

    Dá até medo de ter na presidência da república um elemento desse tipo ignorante do PSDB e que tais.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s