I don’t wanna live on this planet anymore.

As duas últimas semanas foram, talvez, uma das épocas mais conturbadas para os internautas brasileiros: discussões sobre caso de Monique no BBB, protestos contra o SOPA e a disseminação de dois virais: Luíza no Canadá e Julia Bueno. O que esses quatro episódios têm em comum? Como podemos refletir a partir deles?

Sinceramente, gostaria de escrever separadamente sobre cada um, mas, mais uma vez, a velocidade da internet sobrepõe nossas expectativas e, se ontem eu me preparava para explorar o caso de Monique, hoje isso já não passa de uma discussão “superada”. Portanto, vou dizer tudo de uma vez: o que está acontecendo com a internet?

Desconsiderando propositalmente a questão criminal no caso do BBB, considero a ideologia que foi propagada dentro dos sites de relacionamento como um tiro de misericórdia no movimento feminista. Se estávamos todas animadas, pensando que a Marcha das Vadias serviu para alguma coisa, depois daquilo podemos dizer com firmeza: uma mulher que não se porta de acordo com os padrões de santa, não pode ser sujeito passivo do crime de estupro! Pelo que vi, concluo que, provavelmente, um vídeo que mostre um cachorro sendo atropelado causaria mais comoção que uma mulher inconsciente sendo “possivelmente” violada. O benefício da dúvida é muito bem utilizado aqui, não é mesmo? O “suposto” estupro foi filmado, mas, mesmo assim, há quem defenda que devemos esperar a polícia terminar as investigações para falar algo. Fazemos isso quando vemos um vídeo de um deputado recebendo dinheiro? Fazemos isso quando vemos um vídeo de um homem sendo espancado? Mas, com certeza, um “possível” estuprador merece o benefício da dúvida. No fim das contas, considero que sim – é  justo esperar o devido processo legal; mas, se perguntem: por que não houve tanta misericórdia com a enfermeira que espancou o yorkshire?

O que nos leva ao assunto que fez todos esquecerem completamente qualquer outro: Luíza no Canadá. Sugiro que todos aqueles que querem ter uma visão crítica sobre o assunto acessem o post Luiza, o Canadá e a Besteira Virtual no blog Brasil e Desenvolvimento. Limito-me a citar, o meme de Luiza no Canadá “não se trata de uma tentativa do autor do vídeo de  forçar humor ou graça em discurso ou ideia carregada de discriminação social ou racial, mas exatamente o contrário: o público é que enxerga humor num discurso que originalmente não foi elaborado com essa finalidade. É dizer: fazer troça com a besteira comezinha, denunciar a decrepitude de visões deturpadas sobre a realidade e banalizar com inteligência velhos hábitos em franca decadência em nossos dias.” Achou um exagero? Eu não.

Todo mundo estava falando de Luíza, que estava no Canadá, menos Júlia, que estava na suruba, certo? Para mim, essa foi a gota d’água. Júlia Bueno é uma garota cuja vida se tornou um verdadeiro inferno. Aparentemente, alguém invadiu sua conta do Facebook e incluiu fotos em um álbum público de uma suruba – termo acadêmico: sexo com múltiplos indivíduos. Você se depara com essa situação: a privacidade de uma pessoa totalmente violada, exposta, seus direitos fundamentais jogados no lixo. O que você faz: ri e compartilha. Em menos de duas horas o álbum já tinha sido compartilhado por mais de 500 pessoas e já passava de 1.000 comentários, alcançando um incontável número de usuários. Será que essas 500 pessoas não pararam para considerar as consequências desse ato? Mas inconsequência pouca é besteira, ainda precisamos ultrapassar esse nível de desrespeito, ainda temos de perpetuar a ignorância em milhares de comentários cheios de ódio! Vamos humilhar uma garota por sua vida sexual e rotulá-la do ser mais vil de todos: vadia. Mas ainda não é suficiente – temos de atacar os homens também! O que pode ser mais ofensivo? Ah, sim! Vamos falar de sua virilidade, de como eles não são tão homens assim. Exemplificarei com esse comentário, feito por uma mulher, que excede o limite do aceitável: “esses ai vao ser acusados de estupro igual o daniel do bbb, afinal estupro = comer puta bebada hah“. No fim, a própria Julia divulgou uma nota explicando o ocorrido. A nota termina com o seguinte apelo: “Por fim, faço um apelo pessoal a cada um que vinculou meu nome com os atos sexuais praticados nas fotos: imaginem que fizessem o mesmo com vocês?

Júlia, eu realmente acho que as pessoas perderam essa capacidade, o que nos leva ao início do post. Tudo que ocorreu só demonstra como as pessoas usam a internet de maneira leviana, desconsiderando que do outro lado da tela há um ser humano. Não sei mais se eu entro no Facebook ou no /b/. Parece que a internet foi dominada por /b/tards – newfags, ainda por cima. Estamos tão próximos, podemos nos comunicar com um clique, a qualquer hora e em qualquer lugar; estamos, porém, separados por um abismo: não existem mais seres humanos na internet, apenas profiles. Uma ferramenta tão poderosa, com o potencial de realizar a verdadeira democracia, com uma interface que possibilita a verdadeira crítica – a  internet se torna mais um veículo de desinformação. Então, para que lutar contra o SOPA?

Por Gabriela Tavares

9 thoughts on “I don’t wanna live on this planet anymore.

  1. Bom texto, realmente vivemos em uma época estranha, informações compartilhadas na Internet em uma velocidade tão grande sem ao menos serem problematizadas. Soube do caso da Julia agora pela sua publicação, pobre da moça. Todavia, só achei sua crítica muito generalizada no que concerne a lutar pela SOPA, e de sermos apenas profiles, não somos só isso, e falo isso tirando pela sua postagem, você assim como eu e tantos outros ainda se sensibiliza com questões como essas, nos preocupamos com o caminho que as pessoas estão tomando. Por falar nisso, outra onda que se espalha, facebook e twiter principalmente é o preconceito contra nordestinos, homossexuais etc, que época de intolerâncias essa nossa, talvez já houvesse muita, mas agora está escancarado e o pior de tudo é que a maioria só acha cômico.

    Boa noite, abraço.

    • É, concordo com você que fui generalista. Esses casos foram muito fortes para mim o que acabou me fazendo ter essa desesperança com a internet. Concordo que há “luzes” no meio dessa escuridão, não sei se são suficientes. Cada vez mais me convenço que a internet separa as pessoas – de forma a não passarmos de profiles mesmo…
      Uma amiga me disse algo interessante sobre essas ondas de preconceito: “o mundo sempre foi assim, a questão é que agora todo mundo sabe”. Talvez seja até mesmo uma possibilidade de lutar contra o preconceito, pois finalmente ele mostra sua face personificado (nos nossos amigos, parentes, colegas etc.) de forma que permite o diálogo real, não só o abstrato. Enfim, possibilidades.

  2. menina, INCRÍVEL seu texto! vou mandar esse texto, com os devidos créditos, para minha lista de contatos no e-mail!! adorei, muito bom.. além do conteúdo sem incrível, a forma como você escreve é extremamente clara e de fácil entendimento! você tem um blog próprio??

    • Não, Camila, eu não tenho um blog pessoal. Fique à vontade para divulgar o texto! Fico muito feliz que você tenha apreciado.

  3. Se é pra reclamar de alguém no caso da Julia Bueno, que seja do hacker ou da própria, que foi ‘esperta’ o suficiente de deixar a mesma senha/email para o facebook, twitter e e-mail, além de deixar fotos de uma suruba (na qual ela está presente nas fotos, não necessariamente na suruba) no e-mail, e não de quem viu e comentou com outros, todos querem saber do que tão falando por aí, sempre que ocorre um ‘baphão’, todos querem saber🙂 é natural, mesmo motivo que casos de morte, desvio de dinheiro, traição de famosos, são assuntos na tv por tanto tempo, só as pessoas tão mudando, da tv pra internet.
    E fiquei me indagando se a foto dela que foi postada foi propositalmente a mesma camiseta na qual ela está nas fotos ou foi mera coincidência🙂
    E, (meu último ‘e’), pro comentário dela, sobre se por no lugar dela…apareça em fotos de uma suruba, guarde-as no seu e-mail, e espere que os amigos comentem da suruba com outros.. Inocência esperar que isso não pudesse acontecer.

    • Entendo que devemos culpar a pessoa que “vazou” as fotos, mas não compreendo sua postura quanto a ela. Ela não cometeu nenhum crime que eu saiba. Se você guarda fotos privadas suas em sua casa, você não é ingênuo por achar que ninguém vai entrar e divulgá-las, o mesmo vale para o seu e-mail – o que tem nele é privado, você tem esse direito. As pessoas têm de entender que invadir o e-mail de alguém é o mesmo que invadir suas casas, o que tem lá dentro não é propriedade pública
      Sempre que ocorre algo as pessoas voam para saber o que é, até aí tudo bem, mas, sinceramente, o que fizeram vai muito além disso: xingar e compartilhar com o intuito de humilhar alguém não é curiosidade, é inconsequência. É falta de alteridade. É esse comportamento que me causa toda a desesperança expressada nesse post.

  4. Olá, Gabriela! Vim aqui contar que mandei seu texto para meus contatos do e-mail e vários deles me retornaram falando do quão bacana ele é! Fez sucesso, menina!
    Faça um blog pessoal.. escreva mais.. sei lá! Aproveite esse dom! Virei sua fã!

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