Profecias e o limite da razão humana

A figura do homem iluminado, “homo sapiens” no sentido lato, puramente racional, muito embora seja típica de um paradigma já ultrapassado, permanece como uma sombra que, de vez em quando, aparece.  O meio acadêmico-científico é um dos seus ambientes favoritos, onde ela paira sobre os mais desatentos. Não é raro encontrar quem apele em suas teorias a uma “verdade científica”; esquecendo-se que mesmo quando damos voz a uma ou outra tese estamos lidando, para além do lógico-racional, com a emoção.  Ainda não perceberam que o uso da razão, do lógico, da ciência não é e nunca será suficiente para sanar todos os nossos questionamentos.

Por causa dessa figura de “homem racional” a emoção e a espiritualidade são muitas vezes vistas como fraqueza, como empecilho a visão correta de mundo. Mas toda vez que a ciência e suas respostas são insuficientes para o espírito humano inquieto, ou seja, toda vez que essa racionalidade falha ela mesma cede a uma convivência com a emoção. Quando se fala sobre o futuro, ou melhor, quando se faz previsões sobre ele, a racionalidade costuma “dar o braço a torcer”. Ouvimos as palavras probabilidade, estatística, possibilidade, mas dificilmente temos uma resposta concreta que se camufle em única verdade.

As profecias agem assim, no campo limítrofe entre essas duas partes do ser humano. Onde os números dão espaço à numerologia, a astronomia abre espaço à astrologia, as figuras tomam seu aspecto simbólico tantas vezes suprimidos na expectativa sempre do homem racional. Nelas damos lugar àquilo que é simplesmente ignorado por este homem iluminado: que também somos emocionais, que somos irracionais por vezes, que o que está escrito não é tudo, há o subscrito, há o subliminar, o que está acima do que é palpável e concreto, há a alma atrás da mente.

É através da alma e de sua linguagem que dialoga a profecia. Como em Oréstia, a peça grega da qual Ésquilo é autor, Cassandra, outrora amante de Apolo, “amaldiçoada” com o dom da profecia, fala em linguagem simbólica suficiente para ser chamada de louca por muitos, mas clara o suficiente para estremecer a alma de quem se atenta a suas palavras metafóricas. Talvez para o Corifeu, a previsão de que a Rainha Clitemenestra mataria seu esposo Agamêmnon e a própria pitonisa Cassandra fosse obscura, indecifrável tanto quanto o futuro; mas para nós, leitores da história, as frases: “A vaca vence o touro! Envolve-o em seu véu insidioso e pelos cornos negros o domina!” (p. 58) ou mesmo: “Pois a leoa de dois pés, unida ao lobo na ausência do leão feroz, matar-me-á! (…) na taça de veneno que manipula já está a minha parte. (p. 65)” tem o sentido tão forte e palpável como o próprio presente. Numa mistura de razão e emoção, cremos no que vislumbramos com essas palavras, são o palpável, o concreto, mesmo que sua linguagem seja simbólica. O simbólico toma forma.

Isso me tem fascinado na leitura de dois livros bíblicos extremamente carregados de símbolos: Daniel escrito no século II a.C. e Apocalipse, escrito em meados de 90 d.C. Alguns dos seus símbolos estão tão estampados no cotidiano que me espantei, tais como os animais híbridos, as estrelas que caem sobre a terra, a Lua em tom avermelhado, o cavalo negro, o dragão vermelho, a foice, entre tantos outros contidos no livro Apocalipse.

E como seus símbolos, a visão “apocalíptica” de que trata esses livros tem comovido o homem moderno. A idéia de “Fim do mundo” culmina num ápice de angústia quanto à falta de resposta aos nossos questionamentos. É a dicotomia entre a incerteza do que virá com a certeza de que terminará em morte, com a certeza que o futuro é o fim.  Nesse tema, o homem emotivo parece estar vindo à tona de uma forma explosiva.  Por vezes, essa emoção aflora de tal forma que a “profecia”, como fato em si, se torna elemento praticamente dispensável, como vem acontecendo com a tão divulgada “profecia Maia”: a interpretação dada para o fato de um calendário ter uma data final toma forma de profecia de catástrofe. Lembrou-me bastante a ansiedade que causou a data exata de mudança de século. Cria-se nesse caso a expectativa de fim, mesmo que não haja profecia específica sobre tal.

Quanto ao “fim do mundo” Daniel emite profecias obtidas através de interpretações de sonhos. A primeira delas é a exposição e interpretação de um sonho tido e esquecido pelo rei da Babilônia, Nabucodonosor. Nesse episódio, Daniel prevê a existência de 3 reinos posteriores à Babilônia, os quais seriam Grécia, Roma e de um último reino dividido, o qual é citado em Apocalipse como um reino com 10 reis. No Reinado desses 10 reis surgiria um que derrubaria 3 reis e estabeleceria um  reino de paz por um tempo curto culminando em uma verdadeira guerra. O “fim do mundo” viria com a queda desse rei e o estabelecimento do “reino de Deus”.

A questão do simbólico, do espiritual vem retomando seu espaço; por vezes de forma tão impulsiva a ponto de suprimir a lógica, o racional. Apesar disso a possibilidade da convivência não destrutiva entre essas duas facetas do ser é clara, já que elas são complementares para a construção de nosso ponto de vista, e assim da própria identidade do ser. Somos essa dicotomia entre o real e o irreal, entre o visível e o invisível e na percepção disso, dessa condição, as profecias deixam de ser uma loucura para ser a concretização dos símbolos que nos formam, do que é hoje e do que virá.

Por Fernanda Potiguara

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