Sobre Roteiros, Direito e Cinema

Quando Assurbanipal reuniu diversos contos e lendas sumérias formando a Epopéia de Gilgamesh em VII a.C., nascia o modelo fundamental que iria guiar o desenvolvimento de narrativas ao longo da história, tanto no ocidente como no oriente. O poema épico mesopotâmico é a primeira Arquitrama da qual se tem notícia: trata da história do rei sumério, único protagonista que, lutando contra forças externas, busca a imortalidade, nunca alcançada.  Porém, não quero me aprofundar na história em si, mas em sua forma.

Com seus elementos, a narrativa ali esboçada apresenta estrutura semelhante aquela que é utilizada pelos grandes roteiros de Arquitramas hollywodianas. Essas estórias são assim definidas por McKee, “uma estória construída ao redor de um protagonista ativo, que luta contra forças do antagonismo fundamentalmente externas para perseguir o seu desejo, em tempo contínuo, dentro de uma realidade ficcional consistente e casualmente conectada, levando-o a um final fechado com mudanças absolutas e irreversíveis”.

O mencionado autor em seu livro Story apresenta várias outras características sobre roteiros e seu processo de criação, apontando, sobretudo, para a importância da Arquitrama e seu grande apelo comercial e, também, para a maneira como as cenas e atos de uma estória devem ser desenvolvidos; tudo que aparece na tela deve ter uma motivação e apresentar uma mudança em termos de valores em relação ao protagonista, ou seja, não há tempo a perder com descrições da vida e personalidade dele quando não estão ligadas diretamente à estória ou quando não é possível transmitir tais informações ao mesmo tempo em que se transmite as mudanças que a cenas devem proporcionar.

 Enfim, você deve estar se perguntando, qual o motivo d’eu estar escrevendo essas coisas sobre roteiros?

 Bem, aqui vai meu primeiro esboço de um roteiro.

 1º  Ato

Um jovem nascido na periferia de Brasília, após passar toda sua vida vendo sua mãe sendo espancada por seu pai, dependente químico, deci

de deixar sua casa e tentar ganhar a vida vendendo dvds piratas no centro de Brasília. Já ali, descontente com o resultado de seu novo trabalho, em uma das diversas noites que passava dormindo em uma das galerias subterrâneas da cidade, é apresentado ao mundo do crack e, aos poucos, vai revertendo seus poucos ganhos para sustentar seu vício. Alguns meses após, completamente dominado pela dependência, porém acoado pelas constantes ameaças de mortes vindas de traficantes com os quais tinha dívidas, o jovem, após tentar assaltar uma loja de conveniência, é capturado, porém, durante a fuga, acaba se envolvendo em um terrível acidente de carro que resulta na morte de 2 policiais e uma mulher que dirigia um outro veículo.

2º Ato

Após mais de três meses  de prisão preventiva, o jovem passa a ser réu em uma ação penal pública por homicídio doloso, além de furto e tráfico de drogas. Mal sabia ele que a mulher fatalmente morta no acidente era filha de um influente empresário da sociedade brasiliense, dono de um dos mais renomados jornais da capital federal. A partir daí todos os holofotes da cidade passam a apontar para a ação penal, a sociedade clama por justiça e, por meses e mais meses há cobertura completa do processo que culmina com o Júri. Milhares de pessoas  se cadastram para serem jurados, outras milhares vão ao tribunal assitir a chegada do Réu e recebê-lo com ameaças. O promotor de justiça dá entrevista afirmando que fará de tudo para que a justiça seja alcançada e para que a sociedade tenha certeza de que o réu irá passar o resto de seus dias em uma penitenciaria. O jovem, indignado com a cobertura tenta corrigir as distorções dos jornais através de seus defensores públicos. Em vão. O júri é acompanhado nacionalmente, e por 6 votos a 1 ele é declarado culpado. Passam-se 5 anos, ainda na prisão o jovem torna-se chefe de um esquema de encomenda de assassinatos, além de liderar o tráfico dentro da penitenciaria. Mas, no mesmo dia no qual recebe uma proposta milionária para conseguir orquestrar um assassinato, ele se mata ao perceber que ele jamais havia planejado aquela vida para ele.

FIM.

(Final alternativo: Após 15 anos na prisão, o jovem sai, porém, sua saída é logo noticiada pela mídia, e, impossibilitado de encontrar emprego e sofrendo ameaças físicas em todos os lugares que frequentava ele se mata ao perceber que não teria como levar uma nova vida)

Um roteiro com todas as características de uma Arquitrama: um único protagonista, o jovem viciado, que luta contra forças externas (traficantes, polícia, a mídia) para perseguir seu desejo (primeiro, uma vida melhor, depois recursos financeiro para sustentar o seu vício, na sequência o desejo de uma visão não distorcida sobre os fatos que o levaram perante o júri e, finalmente, a luta pela vida que sonhava) levando-o a um final com uma mudança absoluta e irreversível, no caso, a morte.

Um roteiro que se apresenta diariamente nas páginas de jornais e nos autos de processos penais no Brasil.

Poderia ter escrito minhas linhas gerais para o roteiro utilizando um nome próprio ao invés de me referir ao protagonista apenas como jovem. Mas, chamá-lo por um nome que lhe identificasse de alguma forma seria permitir que parte de sua singularidade pudesse ser manifestada; o jovem são vários e para a mídia, para população, para o judiciário, pouco importa o nome dele, o que importa é que ele é um assassino e deve pagar por isso. É isso uma característica básica da realidade na qual ambiento meu roteiro e preciso obedecê-la, caso contrário minha realidade não é consistente, já que me propus a retratar um determinado cenário.

Eu não tenho como mostrar, em, aproximadamente, 120 minutos de filmagens que esse mesmo jovem cresceu vendo sua mãe ser espancada por seu pai, dependente químico; também não tenho espaço para apresentar o motivo que lhe fez sair de casa, juntar dinheiro para tentar conseguir um diploma técnico; igualmente, não tive espaço para mostrar as torturas as quais foi submetido quando procurou um centro de reabilitação da rede pública de saúde e, também, não tive espaço para mostrar que antes de iniciar a fuga ele havia se entregado, quando foi espancado por um dos policiais e ameaçado por outros dois. Aí sim, ele decide fugir e, desarmado, começa a ter o carro no qual fugia metralhado e, após receber um tiro em um dos braços, perde o controle da direção que causa o fatal acidente. Tal qual Gilgamesh ele procurava a vida eterna, cada qual em seu próprio plano, e, assim como o rei sumério, obteve sua resposta: aos homens a morte, aos deuses (e à segurança da sociedade/judiciário) a vida.

Mas ainda assim, tenho um bom roteiro, amarrado, com início, meio e fim. A estória, ainda que parcialmente, é contada e o público terá matéria suficiente para se divertir. O material adicional vai para versão estendida que, quem sabe, um dia será lançada. Aí o público terá material não só para o entretenimento, mas para reflexão.

McKee diz que um dos grandes desafios de um bom roteirista é conseguir condensar a história de tal maneira que os 120 minutos sejam suficientes, que o principal seja contado, que a estória se desenvolva. O público não precisa saber de tudo, ele não quer saber de tudo, seria muito cansativo e demandaria, no mínimo, o triplo de tempo. Mas o que cortar? O que não é essencial para as mudanças que ocorrem com o protagonista, sobretudo aquela mudança final, decorrente do clímax de estória.

Por mais que apresentasse toda trajetória de vida do jovem ao longo do filme, os jurados jamais seriam sensibilizados por ela. A mídia nunca publicaria tais fatos e, caso forçasse meu roteiro para que a mídia publicasse tais relatos, soaria artificial, inconsistente com a realidade na qual ambiento meu filme, o Brasil atualmente. Então é melhor cortar.

Ações penais públicas, sobretudo aquelas que são submetidas ao júri, são excelentes estórias para um roteiro, Arquitramas por excelência (Na realidade dos fatos, na experiência e sofrimento de vida daqueles que passam por algo semelhante, os “roteiros” que são tais ações se aproximam muito mais de minitramas, protagonistas passivos, com perpétuos conflitos internos e, porque não, uma pitada de antitrama, quando se vislumbra a não linearidade dos processos penais e a ausência de qualquer lógica razoável em seu desenvolvimento). Uma coisa eu tenho certeza, caso um dia me falte criatividade e competência para escrever um roteiro irei até secretaria do tribunal do júri mais próxima de mim; lá, encontrarei autos e mais autos que me apresentarão estórias que poderão ser facilmente adaptadas e transformadas em roteiros, com a facilidade de que tudo que realmente interessa para o desfecho do enredo estará lá, e tão somente isso. O desnecessário, se lá estiver, será discreto o suficiente para não atrapalhar meu trabalho.

Tenho a impressão de que um grande roteirista hollywoodiano está por trás de toda essa indústria do entretenimento que conhecemos como Júri no Brasil. É a sétima arte sensibilizando o direito.

Observação pós publicação: na verdade, se pararmos para analisar mais profundamente, o grande protagonista das arquitramas penais brasileiras é a sociedade/Estado que luta contra o crime, os réus são os antagonistas. Nesse cenário a arquitrama hollywoodiana se concretiza ainda mais, com um final extremamente positivo quando vislumbrado a partir dos valores representados pela ordem pública: a segurança foi alcançada e o criminoso devidamente punido.

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