Sawabona

Sawabona é um cumprimento usado no sul da África e quer dizer “eu te respeito, eu te valorizo, tu és importante para mim.” Em resposta as pessoas dizem shikoba, que é “então, eu existo para ti.” 

 

Recentemente, em uma das infindáveis reuniões de tantas coisas que estão acontecendo na universidade, ouvi a voz de uma mulher que falava sobre a infância, sobre cidadania, sobre civilidade, respeito e tantas outras coisas. A mulher em questão havia sido chamada para dar-nos algumas indicações de como lidarmos com alguns desafios em nosso projeto de extensão – Universitários Vão à Escola. O que aconteceu naquela reunião foi que repentinamente fui transportada para o universo escolar da pré-escola e do ensino fundamental e tomada por um enorme choque!

O universo escolar ideal, aquele muito bem pensado por pedagogas e pedagogos, está imerso em um grau de amadurecimento espantoso de civilidade e respeito – repleto de amorosidade. Em seus mínimos detalhes, a metodologia mostra como se deve respeitar a individualidade de cada criança, como cada uma delas é um cristal, talvez cheio de arestas, mas incrivelmente precioso. O princípio de que estou falando é que, ao lidarmos com esses pequeninos, devemos nos esforçar ao máximo para compreender os caminhos pelos quais percorrem para entender esse peso que tem o mundo. Não vejo maior sinal de amor que esforçar-se para colocar-se no lugar do outro para não abortá-lo em sua sinceridade cognitiva diante do mundo. Já falei em outro texto no blog sobre esse processo de abortamento cognitivo ao ignorarmos as percepções infantis e impormos violentamente as convenções irrefletidamente.

Esse respeito, essa humanidade dos nossos primeiros anos não se deve, no entanto, ao fato de que são crianças, frágeis. É tão ingênuo pensarmos que automaticamente saímos de nossas infâncias apenas porque ganhamos anos. Aliás, quantas são as nossas características que comumente atribuímos à infância, mas persistem por todas as nossas vidas? Quero defender aqui que essas fragilidades da infância talvez sejam fragilidades propriamente humanas ocultadas por orgulhos, vaidades e convenções impostas, persistentes nas nossas vidas e que talvez esses princípios de amorosidade e civilidade não tenha esse prazo de validade tão certo.

O espanto que me tomou naquela conversa com a pedagoga reside na percepção de que os padrões aprendidos em nossas infâncias são lá deixados como se fossem questões a serem abandonadas juntamente com os nossos primeiros anos. Se conjugou na minha frente a gritante diferença entre a educação infantil e a educação jurídica. Por que descartamos tudo? A morte do corpo, o internamento, a decadência da criatividade e, o pior de tudo, a morte da sensibilidade em relação ao outro é perfeitamente ensinado na nossa Faculdade de Direito sem paralela maestria. Essa fumaça de autoridade, tradições, formalismos, rigidez, frigidez vai se infiltrando em todos os lugares, em todos os espíritos.

Escrevo esse artigo como tentativa de não me deixar morrer.

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Por Amanda Tiemi em co-autoria com Oberdan Costa

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