Romanos 12.16

Dia 31 de Outubro – o que nos vem à mente nesta data? As opções são várias – podemos temer o começo do final do semestre, ir a uma festa importada de Halloween ou comemorar a véspera do dia do Saci, mas dentre todas essas significações da data, ainda há um marco singular um tanto quanto underground. No dia 31 de Outubro também se comemora o Dia da Reforma.
A sabedoria do Google revela que vocês devem saber do que estou falando– afinal, ao buscar o termo “reforma”, a página da Wikipédia sobre “Reforma Protestante” aparece antes da “reformas rápidas para sua casa”– mas, em todo caso, é interessante relembrar.
Foi há quase 500 anos atrás que um monge agostiniano pregou suas 95 teses – em que discordava de muitos posicionamentos da Igreja Católica, colocando em cheque implicitamente a autoridade papal – na porta da igreja do castelo de Wittenberg, pretendendo uma “simples” reforma – que acabou resultando em uma enorme crise que culminou na cisão da Igreja no Ocidente, dando impulso a várias outras correntes divergentes: as futuras igrejas protestantes.
E tantos séculos depois, em um blog que fala de temas tão diversos e interessantes, por que falar justamente disso?
A resposta mais plausível seria adotar um tom intimista de uma feminista que se assume como luterana livre-pensante – mas sinto dizer que não são minhas curiosas interpretações e elucubrações a respeito de religião que ocuparão este espaço. Sem delongas, venho falar da Reforma para tratar de interpretação Constitucional – e como algumas das implicações de acontecimentos de quinhentos anos atrás parecem demorar a chegar aos recessos mais sombrios de algumas mentes aplicadoras do Direito.
Se não pela primeira vez, mas com ecos nunca antes vistos, uma interpretação unitária do documento fundante da fé cristã era questionada, com as imensas – e, como viu a Santa Madre Igreja, assustadoras – possibilidades de visões de mundo. Ora, se não há uma única e unívoca interpretação para a Palavra de Deus, o que mais poderá, também, ter uma interpretação, uma leitura, diversa? Eis aqui uma pequena semente da ideia de um mundo não mais unitário, sujeito a tantas leituras quanto olhos curiosos existam na face da terra. Ainda mais: a possibilidade de crítica, de dúvida, de contestação à autoridade instituída com base em seu próprio documento fundante, interpretado de forma diversa.
Pois agora a Bíblia – traduzida para a língua corrente, mais acessível às pessoas fora do corpo eclesiástico – poderia e deveria ser lida por todas as almas pensantes, que agora falam com o Cara Lá de Cima sem precisar de rituais autorizados, transações monetárias e interpretações unívocas autorizadas – é a abertura semântica do texto fundante da cristandade.
O que dizer, então, dos textos fundantes do corpo político?
A comparação da Constituição à Bíblia não deveria ser uma surpresa tão grande. Não materialmente, – diz a ferrenha defensora da laicidade do Estado – mas sim pelo papel que desempenham em seus respectivos círculos de significado, como textos que dão sentido e encabeçam toda uma ordem – seja a jurídica ou religiosa, respectivamente.
Ambas encontram, em suas formas de interpretações, as mesmas falácias e distorções que levam tantas pessoas a atitudes aberrantes com seu sentido geral – seja como cidadão que segue a Constituição, ou fiel que segue a Bíblia.
Poderia discorrer sobre a – interessantíssima – comparação entre interpretação bíblica e constitucional, mas, para o curto espaço que temos aqui, fica a provocação: se até a Bíblia é agora instrumento de escrutínio e diferentes interpretações – que podem se modificar com o tempo e o espaço – por que é uma coisa tão difícil conceber que as mesmas palavras podem assumir significados diversos e possibilitar uma abertura para o futuro; que o significado de um texto fundante não é restrito a uma voz autorizada, mas sim, no final das contas, fruto de seu tempo, de seu espaço, e das pessoas que com ele se inquietam…
Sei que tal visão talvez seja radical para muitas – quem sabe todas -as igrejas protestantes já organizadas. Mas com todo o respeito, as portas já foram abertas. Para a Bíblia e para o Direito – que pessoa é ontologicamente autorizada a dizer sua Verdade nesta terra? A quem quiser tentar, fica o aviso de Romanos 12.16 “Que nenhum de vocês fique pensando que é sábio!”
Por Luisa Teresa Hedler Ferreira
Enquanto isso…

Luther

O hispster original

One thought on “Romanos 12.16

  1. Luisa, sua comparação foi genial! Dois “livros” que possuem um caráter tão dogmático que parecem mais crenças, ou falsas consciências, mas que mudam nos tempos pela vontade de quem os interpreta – e que, não por acaso, são sempre pessoas com bastante poder, como os Papas, Presidentes, Legisladores etc. Poderíamos partir daí e incitar discussões interessantíssimas… Obrigado!

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