Braços nervosos

Já não são novidades para ninguém as mobilizações que varrem diversos países clamando, em maior ou menor grau, por alterações na ordem econômica, de modo a possibilitar um incremento de justiça na distribuição de bens. A palavra revolução, de repente – tão de repente como sua construção moderna caracteriza sua ação – voltou a fazer parte do vocabulário de segmentos sociais que já há algum tempo não lidavam com ela, e faz remeter a uma arqueologia conceitual que talvez permita refletir práticas, apontar caminhos e esclarecer riscos.

Quero falar um pouco sobre um evento da Revolução Francesa que ganhou a atenção de alguns historiadores. Em 7 de julho de 1792, o bispo-deputado Antoine-Adrien Lamourette conclamou seus pares a uma demonstração de afeto. À época, não era raro que os ânimos acirrados na Convenção Nacional resultassem em perucas voadoras pelos salões do Manège.

Como num chamado à reflexão em face da inserção da ideia de fraternidade entre os princípios da revolução, Lamourette pareceu conseguir fazer a política atingir o seu absurdo – os “braços vingativos” dados a socos converteram-se em silenciosos abraços entre grupos rivais no ápice da sua fúria. Mas o tempo, não sabia ele, acabaria pouco mais de três meses depois, precipitando a conversão do beijo conciliador em afiadas guilhotinas. A entrada do outono de 1792, que também marcou o início do calendário republicano, fez explodir as tensões políticas que o regulador externo pré-estabelecido (a ideia de fraternidade) buscava conter.

Os surpreendentes acontecimentos de 1789 traziam consigo uma onda do imprevisível; um imprevisível que, surpreendendo a si mesmo, possibilitava, nas palavras de Robert Darnton, “momentos de loucura”, tais quais esse na Convenção Nacional. Contudo, pelo seu silêncio eloquente, essa loucura talvez deixasse revelar uma certa consciência-de-si, sua localização na história-narrativa que, não resistindo à história-processo, apenas acumularia forças para os incidentes que sucederiam a seguir.

O que nos resta daquele episódio? Para além de uma referência em livros de curiosidades, o 7 de julho serve para ilustrar as possibilidades abertas por uma revolução. Qualquer movimento histórico carrega em si o imprevisível. Mas a revolução implica o diferencial de trazer à tona a previsibilidade do impossível. Acordos técnicos, o apelo ao já não existente e a negação da memória revolucionária não conseguem resistir à tensão da política.

Ela aparece mais por estar em seu campo próprio de atuação que por ser inevitável elemento da vida. Há quem creia que a crise financeira, alimentar, ambiental e social em curso escapa à atuação da política e que a simples aplicação das nossas velhas fórmulas macroeconômicas receberá a muda aceitação de um público pronto a se emancipar. Da minha parte, duvido. O silente “beijo de Lamourette” dos nossos tempos, em meu entender ainda em curso, esconde as tensões e contradições de um processo que tende a culminar em violência – em níveis real e simbólico.

Fora disso tudo, resta um tal direito, atuando quase que como um novo regulador moral, disciplinando as concessões de todos em torno da afirmação dos princípios fundantes de um sistema que entrou em colapso. É outro direito que, por se firmar no impossível, possibilita a própria continuação da política. Contra esta, não há revoluções. Recusar acordos e elucidar posições, rejeitando criticamente qualquer consequência que os agentes externos (sejam os Estados não representativos ou certos agentes de mercado criadores de uma nova teologia econômica) usem para espalhar receios, é parte fundamental daquela política. E é elemento indispensável, justamente por isso, de uma construção crítica (do grego krisis, como sabem) do novo direito.

Fazer parte desse processo, mais que vontade, exige consciência e certa dose de honestidade com o que é defendido. Pequenas concessões, em momentos como o que vivemos, podem significar enormes equívocos. Os conservadores agem tal qual o capoeira que prepara o golpe: dançam, gingam, mexem-se, impõem o seu encanto embalado por música, para à primeira mudança de ritmo derrubar o inimigo autofragilizado.

Fortalecer as bases e nutrir os objetivos é o primeiro passo para evitar uma perigosa derrota. Depois de então, pode agir o impossível, esse agente contra o qual não resistem os momentos fundantes e no qual braços nervosos ficam “abertos para o amor e para a morte”.

P.S.: Lamourette foi guilhotinado em 1794.

Por João Gabriel Pimentel Lopes

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