Setor Noroeste – Por que devemos falar sobre isso?

Uma semana atrás, se você me perguntasse “o que você acha da questão do Setor Noroeste?”, eu responderia, prontamente, “nada”. Então começaram os e-mails. Recebia 5 a 6 e-mails diários sobre o mesmo assunto: Santuário dos Pajés. Isso apenas deixou claro que a quantidade de listas que participamos nem sempre é proporcional a quantidade de e-mails que lemos, pois eu simplesmente ignorei as mensagens e continuei a vida normalmente. Até que alguém me fez a fatídica pergunta:

– O que você acha da questão do Setor Noroeste?

E eu respondi:

– Nada.

Mas nunca houve um nada que me fez sentir tão ignorante e vazia quanto esse. A maior parte das perguntas – o que você sabe de processo civil, por exemplo – seriam respondidas por um nada suave e indolor. Eu sabia, contudo, que aquele nada significava meu fracasso como pretenso estudante de direito. O que eu realmente quero dizer é que algo está acontecendo, algo para o qual a ignorância deixa de ser uma resposta aceitável.

Tudo bem! Era então hora de ver – não apenas olhar – aqueles e-mails. A maioria se encaixava perfeitamente naquela categoria panfletária a la movimento estudantil irresponsável. Fui buscar na web e o que encontrei foi um grande indício de que havia algo acontecendo: poucas notícias, dificuldade de pesquisa, informações esparsas e, o mais alarmante, silêncio dos grandes meios de comunicação. Catando de site em site, finalmente, encontrei alguns posts interessantes: no blog do Brasil e Desenvolvimento, a reportagem Lobisomens de Brasília da edição de abril de 2010 da revista Rolling Stones e também notícia recente  Obras do Noroeste são paralisadas após mais um dia de confusão, sobre os protestos estudantis, publicada no site do Correio Braziliense – principalmente a parte dos comentários; e outras notícias.

Só que este não é um texto militante e, por mais que eu esteja caminhando a escolher um lado, não é o meu ponto colocá-lo aqui. O ponto é: somos estudantes de direito, filosofia, sociologia, antropologia, ciências políticas, artes, engenharia florestal, agronomia, relações internacionais; somos estudantes universitários! O que conversamos nos corredores? Se o R.U. estará aberto, se o trabalho é para amanhã, se terá H.H. sexta à noite.

Não há nenhum Curso de Direito Constitucional que nos ensinará a resposta para esse caso, não há nenhum Direito das Coisas Descomplicado que trará a alternativa correta, não há Dworkin ou Habermas que possam nos salvar, precisamos viver. Não existe constituição que não esteja em construção, nem direitos fundamentais se não forem vivenciados, todos os dias.

É necessário perguntar ao seu professor de direito administrativo sobre a ocupação das terras públicas; ao professor de sociologia jurídica sobre identidade e a valorização (ou não) das culturas das comunidades indígenas; ao professor de direito civil o problema da propriedade; é necessário discutir com discentes e docentes os princípios constitucionais e direitos fundamentais envolvidos.

Independente de você concordar com a Terracap ou com a comunidade indígena, é imperativo que você discuta. Não fazê-lo seria nos omitir como academia séria, construtora de saber, formadora de opinião – emancipadora e emancipada.

Por Gabriela Tavares

5 thoughts on “Setor Noroeste – Por que devemos falar sobre isso?

  1. Felicito sua preocupação em aprofundar a análise antes de se posicionar. Para facilitar o acesso a alguns dos fatos envolvidos disponibilizo o seguinte “LAUDO ANTROPOLÓGICO REFERENTE À DILIGÊNCIA TÉCNICA REALIZADA EM PARTE DA ÁREA DA ANTIGA FAZENDA BANANAL, TAMBÉM
    CONHECIDA COMO SANTUÁRIO DOS PAJÉS, LOCALIZADA NA CIDADE DE BRASÍLIA, DISTRITO FEDERAL, BRASIL”. O “laudo antropológico” conclui pela “terra de ocupação tradicional indígena” com argumentos que julgo muito fracos, mas que trazem a base fática sobre a qual se apóia a pretensão dos “índios”. Sugiro sua leitura para aprofundar a discussão.

    Disponível em: https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=explorer&chrome=true&srcid=1Y1Q8H3t9LaS2mRqFC5aiAUTc0R7L3K84lwW45zhfgPzCzNtXok4_mkn-r9sW&hl=en

  2. Infelizmente, grande parte dos estudantes de Direito acredita que Direito se aprende na sala de aula, com “grandes mestres, e que a experiência real não é indispensável ao tão sonhado “notório saber jurídico”. Vamos assim produzindo jurisconsultos descolados do mundo, que tratam os dramas das pessoas, as nossas conhecidas “lides”, como esquemas, entendimentos, linhas de pensamento, concepções abstratas do papel da prestação jurisdicional. O problema é que, quanto mais deixamos de humanizar o direito, mas ele nos desumaniza, nos torna em operadores de um sistema que se retroalimenta sem alimentar uma convivência mais igual, mais harmônica, mais justa. Parabéns pelo texto e, principalmente, pela tomada de consciência. Há motivo para esperança. Um abraço.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s