A universidade e a experiência de alteridade.

Há algum tempo presenciei os primeiros meses de um cursinho pré-vestibular goiano que, na ocasião, abriu sua primeira filial em Brasília. Foi neste contexto que vivenciei uma experiência bastante curiosa.
Em meio às adaptações de alunos e professores ao espaço físico, ainda em reforma, surgiu a primeira demanda, sob forma de uma petição. E a exigência era: a instalação dos chamados “cemitérios” que são aquelas pequeníssimas cabines individuais de estudo.

Até aquele momento o cursinho dispunha apenas de mesas redondas, que de tempo em tempo eram assistidas por professores ou monitores. Os coordenadores do cursinho ficaram estupefatos ao ver a lista com o grande número de assinaturas. Sem conseguir entender a exigência dos alunos brasilienses, e a contragosto destes, negaram a petição.Foi inútil explicar as mil vantagens do conhecimento gerado pelo diálogo com todos os presentes na mesa. Para os professores, seria uma experiência muito mais rica (e provavelmente traria melhores resultados no vestibular) se os estudantes optassem por trocar experiências, sanando as dúvidas uns dos outros. Para os alunos, isso era incogitável: o ambiente competitivo do cursinho os tornava egoístas e pior: não os deixava ver que seriam eles mesmos os prejudicados.

A lembrança deste curto episódio foi ficando mais triste à medida que o comparava com a nossa situação atual de estudantes universitários. A meu ver, somos ainda como aqueles alunos que negaram a mesa circular, ansiando o “cemitério”, por mais cômico que isso possa parecer. Estamos desejosos por nossas cabines fechadas, por nosso contato particular com livros que perdem a graça porque são lidos monotonamente, horas a fio. O processo de aprendizado se torna uma atividade entediante de encucamento de conceitos que causa, vez por outra, o desabamento de sono (estrondoso) de um estudante na mesa de madeira.
Literalmente um cemitério de conhecimento e de vida; um espaço para a agonia, para o martírio.
Analisando nossa condição de estudantes do curso de direito, a compatibilidade dessa comparação se torna ainda mais clara. Temos no “cemitério” nossa grande lição: não olhe em volta! O conhecimento está no livro e tudo que nós vemos na estreita cabine é sua letra mal iluminada. As paredes postiças de madeira que envolvem nossa mesa não nos permite olhar em volta, não podemos nos desviar do foco. O outro se torna um empecilho, um descaminho, uma forma de perder tempo e foco. Uma verdadeira lição de alteridade!

Tendo em vista a reforma do projeto político pedagógico, a possibilidade de repensar como estamos produzindo nosso conhecimento, sugiro que ousemos deixar nossas “cabines”! A segurança que elas nos proporcionam é apenas aparente, e sua verdadeira conseqüência é nossa cegueira e apatia. Seu espaço fechado nos tolhe, entedia-nos, mata nosso brilho. Não há como brotar daí o conhecimento como uma experiência completa, porque isso só é possível com a opinião do outro, sua crítica, seu olhar. Não partilhar o conhecimento não é só um ato de egoísmo, mas uma forma de perdê-lo.
Saltemos então para a mesa redonda, onde o sono dá lugar ao debate acalorado, à discussão. Ali a monotonia da leitura é quebrada pela intervenção inusitada do outro, podendo culminar com o explodir saberes de um trecho aparentemente sem graça do livro estudado. Perderemos a “proteção” do cubículo de madeira, mas ganharemos o horizonte; perderemos o silêncio e ganharemos a vida barulhenta e rica, assim como ela é.

Por Fernanda Potiguara

One thought on “A universidade e a experiência de alteridade.

  1. E essa postura não vai além das salas de aula? As pessoas, de maneira geral, não estabeleceram um grande projeto de vida que depende de certezas absolutas e que precisa ser protegido de qualquer diálogo, qualquer debate, qualquer questionamento fora do estritamente “necessário”? Não vivemos numa época de felicidades encapsuladas sob a ameaça constante de quem não faz parte do nosso mundo, de quem ousa pôr em dúvida nossas idéias, certamente movidas por inveja? Não é essa nossa vida, mais notadamente aqui em Brasília, vida de consumismo, materialismo, isolamento, ilusões? Também acho essa história do cursinho triste, mas muito mas triste como uma “herança” passada por pais que já deram os primeiros passos na direção de uma vida que pode ser “tudo de bom”, mas certamente menos humana.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s