Até onde vai?

“É dever ativo, todo dever que não é pelo nosso enclausuramento. É saber, todo dever que for pela nossa liberação. Qualquer outro dever é bom apenas para entediar. Os outros conhecimentos são apenas a habilidade de um artista.”

Esse trecho de Vishnu Purana é citado por Thoreau em “Andar a Pé”, texto no qual o norte-americano faz uma ode às caminhadas na natureza, longe das cidades e da civilização, longe das obrigações e dos afazeres da vida comum. Nesse e em outros escritos, como o clássico “A Desobediência Civil”, o autor nos traz grandes reflexões sobre leis que devemos seguir e que não paramos para refletir sobre a razão dessa obediência.

Os seus questionamentos são importantes porque nos levam ao limite de uma revolução pacífica, de um movimento não violento contra os poderes instituídos. Thoreau, certa vez, foi preso por ter se negado a pagar impostos para um governo que não concordava, já que esse estava em uma guerra imperialista contra o México e era a favor da escravidão. Foi preso e na cela disse ter se sentido mais livre que qualquer outro cidadão, pois foi livre justamente naquilo que nenhum governo nunca previu ou trabalhou como pressuposto: que é a negação prática de sua autoridade. Assim resumiu sua experiência: diante de um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar digno para um homem justo é a prisão inevitavelmente.

Diante disso, podemos nos perguntar até onde vai nossa liberdade: ela só vai até onde os poderes instituídos nos permitem atuar? Ou ela pode ir além desses poderes, indo até mesmo contra a ordem atual? Indo além, somos levados a nos perguntar sobre a justiça das leis postas pelo governo, já que esse responde a comportamentos contrários à sua autoridade com violência, mesmo que essas negações, pelos cidadãos, sejam pacíficas. Por que obedecer a qualquer tipo de ordem que não concordamos? Por que obedecer a uma ordem que se utilizará da violência, “como uma criança mimada”, na primeira vez que for transgredida?

Seja individualmente (“Alexander Supertramp” e sua fuga egoísta [?] para a “Natureza Selvagem” que motiva milhares de pessoas a colocar uma mochila nas costas e se embrenhar na busca pela “experiência transcendental”), seja coletivamente (o movimento dos indignados que se alastra pelo mundo e que chegou ao centro da crise, Wall Street, esse mês), esses movimentos pacíficos e não violentos nos mostram um descontentamento com a organização da sociedade atual. Por outro lado, mostram a reação violenta da “ordem” contra aquilo que tenta “desordená-la”, “desconstruí-la”, ou, ao menos, se libertar dela. Mostra uma autoridade que é impassível contra aqueles que dela tentam fugir.

Nas diversas capilaridades, como a familiar (o que não foram as buscas do pai e mãe de McCandless senão o exercício de um poder contrariado?) ou a midiática (a negligência da mídia atual frente aos movimentos populares do mundo talvez não seja nada mais que uma forma de ratificar ou proteger o poder que a sustenta), essa reação perante a negação mostra que talvez não sejamos tão livres assim. Por que poder “ser”, se o meu “ser” deve se conformar ao imposto, mesmo que esse meu “ser” não seja violento, mas apenas contestador, não conformista ou que lute por aquilo que acredita?

A premissa de Thoreau de que “o governo não pode ter sobre minha pessoa e meus bens qualquer direito puro além do que lhe concedo” é muitas vezes chamada de individualista. Sou levado a discordar, já que o mesmo Thoreau traz o outro lado da moeda. Para ele, nem mesmo a Constituição é fundamento último de verdade, já que essa é construída longe das amarras dos poderes instituídos, é construída “com a experiência madura e com os protestos reais de nosso povo”. São esses que irão dizer até onde um governo pode interferir na vida de cada um, e se é que esse tem o direito de interferir na vida de alguém sem o consentimento do real afetado. Um governo não pode ir além do seu fundamento, que são os próprios indivíduos, até mesmo aqueles que querem viver “à parte dele (o governo)”.

Por Marcos Vinícius Lustosa Queiroz

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