Cidade, Ideologia e… Matrix?

A afirmação de que toda a ação que vise reformar a cidade é, necessariamente, revolucionária, do marxista francês Lefebvre, no seu livro “O Direito à Cidade” é genial, no sentido mais puro do termo. Em especial pela razões que ele dá para tal afirmação: de que isso acontece por que a cidade é o médium através do qual as ideologias, o plano simbólico se concretiza, se torna palpável de maneira mais clara.

Essas afirmações, entretanto, ainda trazem um quê de ambiguidade que merece uma reflexão um pouco mais aprofundada: qual é realmente a relação entre as tentativas de reformas da cidade e o plano simbólico? Seria “apenas” de que cidade, por conseguir articular de modo tão singular as essas duas dimensões (simbólico e real), seria o campo ideal da revolução, já que toda ação concreta redundaria numa mundança simbólica radical e vice-versa?

Não desmerecendo essa visão, gostaria aqui de propor uma diferente. De reinterpretar essa questão das ideologias, dos planos simbólicos em termos, digamos assim, zizekianos. Se valendo principalmente de Lacan (e com pitadas de Kant), Zizek vai reformular essa questão do simbólico nos seguintes termos: de que o simbólico é mais real que o próprio real.

Afinal, para Lacan o simbólico funciona como um filtro, um óculos escuros: ele é o mecanismo que permite que o trauma constante da exposição ao Real seja “traduzido” de maneira “palatável”, ou seja, nós nunca acessamos o mundo real de maneira plena, esse acesso sempre se dá mediado pela ordem simbólica na qual eu me incluo.

Caso sejamos expostos a um trauma que seja “insuportável” por nossas estruturas simbólicas, nosso “mundo”, nossas referências literalmente são destruídas. Vide o caso dos árabes (que é trabalhado no prefácio da 2ª “The Fragile Absolute”): ao serem expostos de forma tão direta e abrupta à nossa modernidade ocidental, seu plano simbólico não teve tempo de processar o trauma, e daí surge, como resposta, o fundamentalismo islâmico, que é muito mais danoso as próprias tradições islâmicas que ao ocidente…

Nesse sentido, do simbólico como algo necessários ao conhecimento, como o esquema que organiza nossas experiências de forma “coesa”/”lógica”, é que o simbólico acaba, em última instância, se tornando mais “real” que o próprio real: sem acesso as redes/estruturas simbólicas o próprio real deixa de fazer sentido.

Em categorias Kantianas, esse mesmo processo poderia ser descrito em termos da antinomia presente entre os planos numenal e fenomenal: o primeiro é a realidade “pura”, a empiria, inacessível em sua totalidade ao conhecimento humano; o segundo é o plano no qual se estruturam as categorias transcendentais que, justamente por serem imperfeitas/limitadas, possibilitam nosso conhecimento.

Para Kant o conhecimento, e a liberdade, é produzido quando se articulam esses dois planos: quando nós nos utilizamos das categorias transcendentais para acessar o mundo “numenal”, “real”, ainda que esse acesso seja precário. (Daí surge a possibilidade de liberdade: caso nós acessássemos de forma completa o mundo “numenal” seríamos meros autômatos utilitaristas…).

É com essa nova visão do plano simbólico que pretendo interpretar a frase do Lefebvre: sob essa ótica a Cidade ganha um papel ainda mais central nas relações políticas. Para além de ser o local onde as lutas reais, efetivas podem levar a mudanças imediatas na ideologia, ela passa a ser “o” local de acesso direto e universal ao simbólico, pois, parafraseando São Paulo (Gl, 3:28), nela não existem negros, judeus, gregos, asiáticos, homoafetivos ou mulheres: todos são “citadinos/cidadãos”.

Traçando mais um paralelo, o último, com o pensamento do Zizek: no “A Visão em Paralaxe” ele propõe uma releitura da trilogia Matrix, fazendo uma releitura muito interessante de um fato pouco lembrado quando se fala do filme: sobre o possíveis motivos do Neo ter ganho a capacidade de usar seus poderes fora do ambiente da Matrix, do simbólico.

Como existem dois momentos (no finalzinho do Reloaded e durante todo o Revolutions) em que esse fato acontece, o filósofo esloveno propõe, igualmente, duas interpretações (mas vamos ficar só na primeira, a segunda não cabe aqui): no caso (nas cenas finais do Reloaded) tal evento acontece numa clara ruptura com o primeiro filme, ele é atestado de que é necessário voltar e não apenas sair da matrix para resolver a situação, ou seja, de que é tão ou mais necessária uma mudança no simbólico ao mesmo tempo que no “real”.

Minha proposta é radicalizar essa afirmação através das possibilidades que advém do conceito de cidade do Lefebvre: lá seria onde todos nós teríamos o acesso ao real e ao simbólico, como pequenos Neo’s, de ilimitado potencial.

Pedro Godeiro

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