Faísca que ateia o fogo

Conceito de difícil delimitação, a Universidade pode ser compreendida de forma mais ampla como um privilegiado espaço em que florescem, quase que espontaneamente, debates e discussões. Nos corredores, nos jardins, nos bares, nas rodas de amigos, nos estacionamentos abarrotados, em todos esses espaços surgem questionamentos e indagações de toda ordem; contrapõem-se aí concepções de mundo que muitas vezes se situam em pólos diametralmente opostos. E são nesses mesmos diálogos que se tornam evidentes problemas antes desconhecidos ou ignorados. A alteridade, o contato com o outro permite, assim, que nos tornemos mais propensos a aceitar e a reconhecer o diferente. Essa aceitação do novo, que não necessariamente se refere a critérios estritamente cronológicos, possui importância capital em um ambiente como a Universidade que deve invariavelmente primar pela possibilidade de sempre revisar os próprios achados – o conhecimento científico é um saber que se sabe temporário. A Universidade deve, portanto, ter como um de seus principais alicerces a busca do ideal de que todos os indivíduos que nela estão inseridos possam mudar livremente de opinião; deve ser garantido o direito de até mesmo contradizer posicionamentos anteriormente defendidos. “Tolerância é condição essencial da vida universitária” (RIBEIRO, 1986, p. 15).

Ao instigar a tolerância e o convívio de discursos diferentes, a Universidade possui um papel formador que transcende em muito o mero desenvolvimento de aptidões técnicas. Nos corredores e jardins de uma faculdade, não se desenvolvem apenas conhecimentos práticos de uma arte ou ciência.

“Transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador. Se se respeita a natureza do ser humano, o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio à formação moral do educando. Educar é substantivamente formar” (FREIRE, 1996, p.33).

Reforçar a capacidade crítica, a criatividade e a insubmissão são objetivos a serem buscados em uma Universidade de excelência. As reflexões e indagações, os questionamentos e as querelas presentes no espaço acadêmico permitem que a Universidade conteste, quando necessário e de forma bastante pujante, discursos legitimadores que muitas vezes respaldam inúmeras injustiças encontradas no corpo social.

“O saber ou a técnica, por competentes que sejam nada significam, se não se perguntam para que e para quem existem e operam, se não se perguntam a quem servem, se não se perguntam se há conivência do sábio com o cobiçoso” (RIBEIRO, 1986, p. 06).

Daí a importância de a Universidade refletir acerca de qual o real objetivo a ser alcançado em um processo de formação. Qual o perfil e quais as habilidades que queremos que sejam desenvolvidas e potencializadas ao longo de um curso superior? Quais práticas serão implementadas com o intuito de que as competências eleitas como indispensáveis floresçam? A Academia não pode abster-se de seu papel fundamental no engendramento de práticas que visem incentivar os estudantes a perceber o seu papel na sociedade. A forma como os jovens graduandos atuarão quando do termino do curso está intimamente vinculada à maneira como a sua formação foi construída.

É preciso frisar neste ponto que o processo educativo efetiva-se, em grande parte, apenas quando professor-instigador e aluno-questionador conseguem construir conjuntamente, por meio da articulação de saberes diversos, um novo discurso, uma perspectiva sui generis de se abordar a realidade. A fluidez e a espontaneidade dos saberes construídos por meio dessa relação educador-educando permitem que a Universidade dê vazão a formas totalmente inovadoras de abordagem de problemas, mesmo os já exaustivamente debatidos. O espaço acadêmico torna-se verdadeiramente emancipatório e transformador à medida que permite a existência continuada desse intercâmbio entre indivíduos e esferas distintas de conhecimento. Professor e aluno; Universidade e Comunidade; fontes interdependentes e complementares no processo criativo. “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção” (FREIRE, 1996, p.22).

Sendo assim, faz-se necessário que se discuta o processo educacional mais profundamente. A maneira como é compreendida atualmente a formação acadêmica inviabiliza e dificulta a participação conjunta dos indivíduos na construção de conhecimento; o “ensino-bancário” a que estamos sujeitos não permite que ajam diálogos íntimos entre educadores e educandos. A própria estrutura hierarquizada das salas de aula e as grades horárias inflexíveis tornam-se empecilhos à existência de uma maior interação dentre os próprios estudantes. O aprendizado fenece nas duras carteiras e na intransigência de muitos professores; o desinteresse dos estudantes se deve muito em parte ao sistema atual de ensino.

E é nesse contexto de crise do atual modelo de educação (?) que se insere uma discussão premente em muitas Universidades. Uma das mais promissoras soluções para que sejam resolvidas as lacunas existentes na formação dos estudantes é o incentivo à utilização mais intensa da extensão como parte integrante do processo formador dos alunos; a indissociabilidade de ensino, pesquisa e extensão fazem referência a essa prática tão fundamental, e, ao mesmo tempo, tão negligenciada nas Universidades brasileiras. Ao trabalhar a partir das demandas advindas das comunidades, os vários projetos de extensão existentes articulam as diversas formas de conhecimento, trabalhando por meio de um incessante diálogo com a sociedade e seus problemas.

A extensão trata-se, pois, de uma via de mão-dupla; promove um aprofundamento teórico, refinando, assim, a formação acadêmica dos estudantes, ao mesmo tempo, em que articula a ligação entre Comunidade e Universidade. Ao lidar diretamente com a população, a extensão universitária supre uma série de deficiências existentes na formação disponibilizada pela Academia. No exercício das atividades vinculadas à extensão os saberes desenvolvidos nas Universidades se cristalizam; ao utilizarmos os conhecimentos na prática, verdadeiramente o estudo se torna relevante.

Possui, portanto, a extensão, uma função primordial na formação acadêmica; dá sentido aos conceitos aprendidos em classe, muitos dos quais julgávamos antes como inócuos; e, instiga o surgimento de ramos férteis de pesquisa, alguns deles vinculados às atividades desenvolvidas em conjunto com a comunidade. As soluções utilizadas para resolver, amenizar, ou explicar os problemas existentes no local de atuação dos vários projetos de extensão existentes acabam por incentivar a renovação e a atualização dos conhecimentos analisados nas Universidades. Em contrapartida, quando o tripé ensino-pesquisa-extensão não é devidamente apreciado, ocorre um irreversível processo de desvirtuação do conceito de Universidade. Quando entendidos de maneiras estanques não ocorre a necessária comunicação que deve sempre ocorrer entre ensino-pesquisa-extensão; ao serem encaradas dessa forma, todo o processo formador a que os indivíduos são sujeitos durante a Universidade fica irremediavelmente prejudicado.

Sem a valorização da extensão como parte essencial do tripé ensino-pesquisa-extensão; quando inexistente os vínculos entre Comunidade e Universidade normalmente forjados nos projetos de extensão; portanto, quando não existir o pleno desenvolvimento de qualquer uma dessas três atividades fundamentais, o processo de formação acadêmica a que estão sujeitos os estudantes aí inseridos, estará desvirtuado do ideal de Academia como “a Casa em que a Nação brasileira se pensa a si mesma como proble­ma e como projeto” (RIBEIRO, 1986, p.16).

Quando das manifestações de Maio de 68, na França, uma das inscrições mais sugestivas encontradas nos muros parisienses vaticinavam que “o que queremos, de fato, é que as ideias voltem a ser perigosas.” Talvez, quando questionamos o processo de formação a que nossas Universidades nos submetem, estejamos apenas indagando a nós mesmos se nossas faculdades ainda são capazes de abrigar algumas dessas utopias; se em nossas Universidades a educação ainda funciona como a faísca que ateia o fogo.

Referências bibliográficas:

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

ROBERTO, Darcy. Universidade, pra quê? Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1986.

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Edson de Sousa

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