Quantas vezes uma mesa de boteco lhe ensinou mais do que uma sala de aula?

A construção de nossas opiniões e concepções de mundo depende invariavelmente de reflexões e indagações internas, mas assim que saem de nossas bocas, elas ganham nova cara, uma forma única e inédita até mesmo para seu articulador. Isso porque a fala depende necessariamente de uma organização, de uma sistematização, cujo complexo processo nos passa despercebido na maioria das vezes.

O debate proporciona um momento de criatividade espontânea que, ao apresentarmos nossas opiniões e ideias, acaba por moldar o que somos, pois assim nos mostramos ao mundo. O eu somente existe em complexidade se em relação com o outro; existir é dialogar. Viver é comunicar-se.

E se a importância do debate e do diálogo nos parece tão evidente, e em especial no âmbito jurídico, é incompreensível observar tão pouco espaço para ele nas faculdades de Direito.

Não que haja demérito no clássico método expositivo, por vezes necessário em qualquer espaço onde há a busca por conhecimento. Contudo, sua utilização em larga escala, não acompanhado de debates e do espaço para o diálogo, faz do método expositivo um método meramente impositivo. E essa imposição acrítica e acéfala de conhecimento se complementa com as corriqueiras provas ao fim de cada unidade, nas quais os alunos devem provar ao professor que sabem repetir exatamente aquilo que lhes foi dito.

O curso de Direito na UnB tem mais de 90% de sua grade destinada a disciplinas obrigatórias. Com isso, trancam-se as diversas portas que a Universidade oferece, e tem-se um curso que se apresenta como uma ditadura conteudista em que os estudantes, mal reconhecidos como sujeitos autônomos, são tutelados sobre aquilo que se deve aprender ou não.

Essa atual situação da faculdade, a reprodução de conhecimento, a proposta didática de provas e de manuais e até mesmo a postura da maioria dos estudantes ao longo do curso são, na realidade, paradoxais àquilo que a Universidade sempre se propôs ser. E tem-se um quadro no qual o estudante pesquisador e/ou extensionista é desprestigiado institucionalmente.

Feito nesses moldes, o “conhecimento” se constrói na vedação à imaginação, ao novo, ao inusitado. E como podemos conceber, hoje em dia, um jurista que não se valha da criatividade; um advogado que não se valha de argumentos inusitados?

Do ensino médio repleto de verdades e conceitos já bem determinados, entramos no curso de Direito com uma ânsia impressionante por conhecimento, mas que se mostra extremamente limitada se herdarmos a postura de coadjuvante na produção acadêmica. Na concepção de que a Universidade se fundamenta justamente na produção de conhecimento, como podemos aceitar um curso inteiro de graduação fundado na exposição catedrática?

Tendo isso em vista, na busca de se fazer jus ao tripé pesquisa, ensino e extensão, o PET trabalha sua concepção de educação jurídica junto à turma de Pesquisa Jurídica, sempre valorizando o diálogo. Trabalhamos na ideia de que alunos podem ensinar e aprender, ser protagonistas da produtividade acadêmica, e devem exercer sua liberdade de fala no lugar de um conhecimento totalitário e impositivo.

Assim, realizando alguns encontros ao longo do semestre, organizamos atividades que procuram proporcionar a construção de argumentação por meio de debates, buscando-se uma relação dialógica. Compartilhamos da concepção de que esse é um eficiente caminho à construção de posicionamentos bem fundamentados, bem como ao respeito a diferentes opiniões e concepções de mundo.

Entendemos como muito importante a ruptura com o modelo moderno do conhecer, percebendo a importância da literatura e da arte em geral como meios também necessários no aprendizado. E como diz Fernando Pessoa, “livros são papéis pintados com tinta./Estudar é uma coisa em que está indistinta/A distinção entre nada e coisa alguma”.

Não podemos deixar de ter em mente que o colega ao lado, com toda sua experiência de vida, pode nos ensinar muito mais que centenas de páginas pintadas com tinta.

Buscamos, no fim das contas, trazer um pouco a espontaneidade do frutífero e caloroso debate que ocasionalmente temos nas mesas de boteco.

Por Rafael de Deus Garcia

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