A Árvore, a Velha e o Menino

A primeira lição a que devemos nos ater quando pretendemos pôr qualquer figura no papel de forma sincera é: devemos olhar o nosso objeto como se nunca o tivéssemos visto antes. Talvez seja essa a etapa mais difícil de todo o processo angustiante de tentar comunicar pelo traço. Essa é a etapa em que nos despimos de todo o lixo de figuras previamente incutidas em nossas cabeças, desde nossa pré-escola e primário com aquelas imagens vulgarmente bonitas, bem contornadas com canetinhas e coloridas com lápis Fáber-Castell. Árvores sem folhagens, sem cascos mortos na madeira; mãos sem unhas, corpos sem carne; pássaros sem bico, que só voam longe.
Não me entendam mal. Não critico o desenho infantil. O contrário. Critico o que os adultos esperam do desenho infantil. As primeiras tentativas de se comunicar através do traço são, na verdade, as mais sinceras. Quantos detalhes dos quais já nos esquecemos há tempos aparecem nos desenhos infantis? Olho carinhosamente para a figura humana que foge bruscamente das regras anatômicas de representação humana, mas que não se esquece das rugas do pai, ou dos joelhos da mãe. Uma formiga pode ter muito mais que 6 patinhas, mas a impressão do bicho ser excessivamente estranho aos seus olhinhos acostumados a animais de no máximo quatro patas está lá no papel, no número exagerado de membros articulados.
O triste mesmo é o esquecimento dos velhos. Esquecemos que na verdade já fomos livres e (sim, E) capazes. As professoras velhas impõem ao desenho honestamente disforme o padrão estilizado, facilmente acessível, mas péssimo meio de comunicação para a criança. A imposição desse padrão estético pode colaborar para que esse jovenzinho consiga desenhar uma árvore, o que antes não podia fazer. Mas essa não é a sua árvore, não diz nada do esforço desse menininho em entender como é a árvore. Não o ensinaram a desenhar a árvore, proibiram-no de aprender.
Esse processo de imposição de signos é constante em todas as nossas vidas. É necessário, não o repudio completamente. Mas faz-se de forma necessariamente violenta. Devemos ter cuidado, principalmente, porque nos habituamos a ele a ponto de nem percebermos a que estamos submetidos. O problema não é a criação de signos. A morte acontece quando nos passa despercebido que isto:

não é uma árvore. Mas a representação de uma árvore. Uma representação, aliás, bem impessoal cuja intencionalidade diz mais sobre a padronização dos signos comunicativos para alcançar uma inteligibilidade mais ampla possível do que sobre a intenção de transmissão de algum conteúdo realmente subjetivo.
Não há grandes problemas em contarmos com um arsenal de signos de fácil acesso para sermos compreendidos com relativa fluidez. Mas esses signos de fácil acesso não são suficientes. Possuem um conteúdo tão difundido que praticamente não comunicam o que pode haver de mais íntimo a ser posto na mesa da comunicação.
Há algo de essencial a ser dito, não é? Um algo que todos querem dizer, mas que não é o mesmo para todos. Há algo específico de cada um que precisa de seus próprios meios para fluir e comunicar. É esse o momento em que o padrão não serve, em que ele amarra, aperta, deforma. O crime da professora velha se revela nesse momento. A professora interrompe a lição mostrando ao rapazinho apenas aquilo que as pessoas antes dele consensuaram o que poderia ser chamado de árvore. A lição foi dada pela metade, ela não o desafiou a dizer o que era a árvore para ele. Ela não o desafiou a investigar, interagir, criar a sua representação de árvore. A professora velha foi indiferente à pessoa do menininho. Assim como o “desenho-tipo” da árvore é indiferente ao garoto.
Impessoalidade, signos prontos que pouco falam de nós, falta de interatividade entre signo e objeto.
Olhando para o que foi feito de nós no passado (o que deixou sequelas contras as quais lutamos diariamente), percebo angustiada que é feito conosco ainda hoje com maior sofisticação – ou talvez não seja sofisticação, mas incapacidade nossa de perceber com clareza seus contornos. Contentamo-nos com a doutrina, assim como aconteceu com o “desenho-tipo” da árvore. Somos novamente abortados quando não buscamos tocar na prática viva do que pode ser também chamado de direito, quando não olhamos para os fatos, quando não passamos pela experiência de uma verdadeira extensão. Tudo muito parecido com aquele momento em que não tocamos nossas mãos na árvore para saber o que ela é além do papel da professora.

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Amanda Tiemi

2 thoughts on “A Árvore, a Velha e o Menino

  1. Texto irrelevante.Programas de educação tutorial devem propiciar aos alunos participantes, sob a orientação de um tutor, a realização de atividades extracurriculares que complementem a formação acadêmica do estudante e atendam às necessidades do próprio curso de graduação para fazer jus ao apoio financeiro de acordo com a Política Nacional de Iniciação Científica.
    Faça projetos sociais que você aprenderá mais do que escrever textos sem propósito.

  2. Prezado Arthur Lacerda, vejo que você leu o texto e apreendeu muita coisa da reflexão que ele imprime e sugere. Sem propósito é um comentário que não adiciona nada com a crítica nem propõe um debate de idéias.

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