Os Jardins da FA

Juristas não são educados para falar de beleza. Discorrem a respeito de leis e princípios, jurisprudência e doutrina – talvez, com algum grau de poesia, sobre o correto e o justo. Mas o que nos dizem sobre proporções, ângulos e pontos focais? Devem ser aqueles “indiferentes jurídicos” dos quais nos falam para delimitar as fronteiras do que nos deve ser importantes. Porém, para aqueles que ainda não chegaram ao nível de esquizofrenia o suficiente para completar a cisão entre o jurista e o ser humano, a beleza é um elemento que povoa o mundo, mostrando alguns lampejos de sua presença aqui e lá, aliviando o peso da rotina mecanicista ao parar o tempo para um segundo que seja de contemplação…

 Pessoalmente, eu acho a FA linda. Só consigo falar tal coisa dando um enorme salto para fora do “eu sei” em direção ao “não tenho idéia do que estou falando”, uma vez que a minha concepção de beleza vêm de meus sentidos e memória emocional. É um prédio maltratado, inegavelmente – mas a suavidade e as cores dos jardins que dominam o meio do prédio fazem todas as rachaduras e manchas parecerem pequenas, desimportantes.

Porém, falar da situação FA – tanto seus jardins quanto sua estrutura – não é apenas discorrer sobre sua beleza, mas também sobre a conservação de patrimônio público (e patrimônio da humanidade!), funcionalidade, segurança na estrutura e a forma de utilização do prédio. Estamos falando de nosso local de estudos, onde muitos de nós passamos grande parte de nossos dias, em atividades de estudos, trabalho, socialização e descontração, assim como a materialização do que é a Faculdade de Direito, em parte.

Dentro da suavidade dos jardins, sempre me intrigou a existência de dois fossos estranhos de concreto, para os quais não via utilidade nenhuma a não ser como mecanismo de seleção natural para eliminar alunos mais distraídos que acabassem tropeçando ao lado dos bancos em cima. Só depois de um tempo soube que aquilo deveriam ter sido espelhos d’água – e, mais assombroso ainda, que já tinham sido cheios de água, mas tinham sido desativados. Há uma certa inquietação nossa – como membros do PET – de zelar não apenas pelos aspectos acadêmicos, mas por outros tantos que envolvem a vivência universitária – e o estado de abandono de nosso prédio, e as possibilidades de melhorá-lo, são preocupações adotadas por nós.

Na última reunião do PET, dia 28 de Abril, tivemos a grande oportunidade de conversar com o Prof. Matheus Gorovitz, o arquiteto que projetou a FA, que nos apresentou o plano original para o prédio, assim como suas opiniões a respeito de seu estado atual.

 Ele iniciou sua fala comentando que não apenas os jardins, mas o prédio em si estava abandonado e desfigurado. Não se trata de um fenômeno local, e sim de toda uma forma de lidar com a Universidade e com Brasília – com a forma de se (des)cuidar daquilo que é simultaneamente patrimônio público e patrimônio da humanidade.

Há uma parte da estrutura, um brise, que caiu e apresenta possíveis riscos, além do fato da cantina estar localizada em frente ao auditório – que, por sua vez, tem um projeto de reforma há um bom tempo, que ainda não foi realizado. Nosso prédio precisa, sim, de reformas – tanto para reparar danos quanto para otimizar a utilização do espaço – mas o mais surpreendente foi como uma alteração relativamente pequena e aparentemente estética pode beneficiar em vários aspectos a nossa convivência na FA: a reforma e reutilização dos fossos como espelhos d’água.

Originalmente pensávamos que alguma infiltração teria sido a causa do esvaziamento, mas o cenário apresentado pelo Prof. Gorovitz era surpreendentemente simples: a água foi retirada por receios a respeito da dengue, e a manta impermeabilizadora, sem água, tinha se deteriorado. Para recuperar o espaço, basta impermeabilizar o fundo e, após preenchê-lo com água, evitar que as larvas de mosquito tenham mais um habitat ideal – seja colocando peixes, seja fazendo a água circular com um esguicho ou uma fonte.

Os benefícios de tal medida superam em muito o embelezamento dos jardins (que em si já seria ótimo). Estamos falando aqui de uma melhora na qualidade de vida de professores, funcionários e estudantes por outros meios além de um ambiente mais bonito:  a presença de água faz aumentar a umidade e o frescor do ambiente na época de seca que se aproxima, assim como a ventilação nos ambientes fechados. Ora, como a água tornaria a temperatura do pátio mais baixa, a diferença entre ela e as paredes do prédio cria uma diferença de pressão, fazendo com que o ar circule.

Uma FA mais úmida, arejada e bela…

Quando comecei, falava de beleza, e agora circulam pelos jardins termos como umidade e circulação do ar, reformas, orçamentos, custos de manutenção e patrimônio público. Talvez porque haja uma forma de beleza em um ambiente bem-aproveitado, no conforto e bem-estar das pessoas que por lá circulam, tanto quanto há no som de água corrente e na brisa que agita as folhas…

Por que não?

Luisa Hedler

2 pensamentos sobre “Os Jardins da FA

  1. Matheus

    Oi Luísa,

    Sou do PET-ECO e queria simplesmente comentar que o seu texto ficou muito bem escrito. Interessante também a importância dada pelo PET-DIR ao patrimônio público e a preocupação ampla com os problemas da Universidade.

    De minha parte, sempre acho interessante quando, despidos de nossa arrogância, deixamos um pouco de tentar resolver os problemas do mundo e olhamos um pouco para nossa casa, nossa rua, nosso prédio.

    Meus parabéns.

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